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Gestão financeira para iniciantes: guia prático para começar

10 min
Olga Teixeira
Olga Teixeira

A gestão financeira pode parecer complexa, sobretudo quando começa a assumir novas responsabilidades. Ter o primeiro emprego, sair de casa dos pais ou começar a gerir o próprio dinheiro de forma autónoma implica tomar decisões sobre despesas, poupança e orçamento.

Nesta fase, é importante aprender a organizar os rendimentos, controlar os gastos e definir prioridades financeiras. E a verdade é que criar bons hábitos desde cedo pode ajudar a evitar desequilíbrios no orçamento e a preparar melhor o futuro.

Neste artigo, explicamos os principais conceitos e decisões da gestão financeira para iniciantes, desde a criação de um orçamento e a definição de objetivos de poupança até ao uso responsável do crédito e aos primeiros passos nos investimentos.

Porque é importante fazer uma boa gestão financeira?

Fazer uma boa gestão financeira significa, acima de tudo, aprender a gerir o dinheiro que tem, seja a mesada enquanto estudante universitário, seja o salário do primeiro emprego.

Manter as contas equilibradas, gastando menos do que recebe, ajuda a evitar dificuldades financeiras e a lidar melhor com despesas inesperadas. Além disso, permite:

  • Ter maior autonomia financeira;
  • Ter maior controlo sobre o orçamento;
  • Reduzir o stress relacionado com o dinheiro;
  • Ter maior capacidade para atingir objetivos financeiros;
  • Prevenir oendividamento e o sobreendividamento;
  • Começar a construir património a longo prazo.

Gestão financeira para iniciantes: guia prático de primeiros passos

Para quem está a começar a gerir o próprio dinheiro, organizar as finanças pode parecer mais complicado do que realmente é. Orçamento, poupança, crédito e investimentos são conceitos que nem sempre são fáceis de compreender à primeira.

A boa notícia é que não precisa dominar todos estes conceitos para começar. Com alguns passos simples, pode organizar melhor o seu dinheiro, evitar erros comuns e criar hábitos financeiros mais saudáveis.

Eis os principais passos da gestão financeira para iniciantes:

  1. Criar um orçamento mensal;
  2. Definir objetivos financeiros;
  3. Começar a poupar;
  4. Criar um fundo de emergência;
  5. Começar a investir;
  6. Evitar dívidas desnecessárias;
  7. Investir na literacia financeira.

Nos tópicos seguintes, explicamos cada um destes passos e damos-lhe algumas orientações para começar a gerir melhor as suas finanças.

Como criar um orçamento mensal?

Para criar um orçamento mensal, pode usar um ficheiro Excel, uma app ou

ou outro método que lhe seja conveniente. A lógica, no entanto, é simples: de um lado, estão os rendimentos que recebe; do outro, as despesas, que podem ser fixas ou variáveis.

Por exemplo:

Rendimentos:
Salário;
Trabalho em part-time.
Despesas:
→ Renda de casa;
Alimentação;
Eletricidade, água e comunicações;
Combustíveis e transportes;
Seguros;
Lazer.

O objetivo é evitar desequilíbrios no orçamento: não gastar mais do que recebe e, sempre que possível, reservar uma parte do rendimento para poupar ou investir. Uma das formas de organizar esta distribuição é aplicar a regra 50/30/20, que propõe dividir o rendimento da seguinte forma:

  • 50% para despesas essenciais, como habitação, alimentação e transportes;
  • 30% para desejos e atividades de lazer;
  • 20% para poupança ou amortização de dívidas.

No entanto, criar um orçamento é apenas o primeiro passo. Adicionalmente, é importante revê-lo regularmente para:

Como definir objetivos financeiros?

Os objetivos financeiros são metas que pretende alcançar através da gestão do seu dinheiro. Para serem mais fáceis de concretizar, devem ser claros, realistas e ajustados à sua situação financeira. Por exemplo, se recebe o salário mínimo, pode não ser realista definir como objetivo comprar um carro topo de gama num curto espaço de tempo.

Estes objetivos podem estar relacionados com diferentes áreas das finanças pessoais, como:

  • Poupança: constituir uma determinada quantia, como ter 10.000 euros de poupança;
  • Investimento: atingir um determinado valor investido ou fazer crescer o património ao longo do tempo.

É também importante definir objetivos a curto, médio e longo prazo. Por exemplo, pode estabelecer como meta comprar um carro este ano, abrir uma empresa dentro de cinco anos ou constituir um Plano Poupança Reforma (PPR) para complementar os rendimentos na reforma.

Ter objetivos financeiros bem definidos ajuda a manter a motivação e a tomar decisões mais conscientes sobre o dinheiro.

O que é o método SMART? O método SMART pode ajudá-lo a transformar objetivos genéricos em metas mais concretas e alcançáveis. Segundo este método, um objetivo deve ser:
S (Specific/específico): claro e concreto; →
M (Measurable/mensurável): quantificável, para que possa acompanhar o progresso;
A (Attainable/atingível): realista tendo em conta os seus recursos;
R (Relevant/relevante): alinhado com as suas prioridades;
T (Time-bound/temporal): definido com um prazo para ser concretizado.

Como começar a poupar?

Poupar não significa apenas chegar ao fim do mês com algum dinheiro disponível depois de pagar todas as despesas. Embora seja importante manter algum dinheiro de reserva, poupar implica criar o hábito de colocar regularmente uma parte do rendimento de lado.

Quando ainda está a estudar ou acabou de conseguir o primeiro emprego, pode parecer mais difícil conseguir poupar. No entanto, mesmo pequenas quantias podem fazer a diferença e, sobretudo, ajudar a criar um hábito de poupança sustentável a longo prazo.

Estas são algumas dicas e desafios que podem ajudá-lo a começar:

  • Pague-se a si primeiro. Ou seja, assim que receber o salário, coloque de parte uma determinada quantia para poupar ou investir;

Mais importante do que o valor inicial é criar consistência e acompanhar a evolução da poupança. Desta forma, consegue perceber se está a atingir os objetivos definidos e se precisa de ajustar os seus hábitos ou métodos.

O que dizem os números sobre os hábitos de poupança dos jovens? Segundo o relatório do 4.º Inquérito à Literacia Financeira da população portuguesa (2023), 70% dos jovens entre os 18 e os 24 anos não fizeram qualquer poupança no ano anterior.

Para que serve o fundo de emergência e como criar um?

Um fundo de emergência é uma reserva de dinheiro destinada a fazer face a despesas imprevistas, como uma avaria no carro, uma reparação urgente em casa ou uma despesa de saúde inesperada. É um dos princípios básicos da poupança, já que garante uma almofada financeira capaz de lidar com situações inesperadas sem ter de recorrer a crédito ou comprometer o orçamento mensal.

Contudo, não existe um valor único para criar um fundo de emergência. Alguns especialistas recomendam uma reserva equivalente a três meses de despesas, outros falam num mínimo de seis meses.

Mais importante do que atingir imediatamente um valor específico é começar a criar o fundo de emergência, mesmo que seja com pequenas quantias. Tenha ainda em conta os seguintes cuidados:

  • Mantenha o fundo separado do dinheiro para as despesas do dia a dia, de preferência numa conta à parte;
  • Escolha uma solução que permita aceder facilmente ao dinheiro quando surgir uma emergência;
  • Utilize o fundo apenas para situações realmente imprevistas e necessárias, e não para despesas correntes ou compras não essenciais;
  • Se precisar de recorrer ao fundo, reponha o valor assim que possível, para voltar a ter a mesma proteção financeira.

Como começar a investir?

Depois de começar a poupar e de criar uma reserva para imprevistos, pode fazer sentido investir parte do seu dinheiro para tentar fazê-lo crescer ao longo do tempo. Os investimentos podem também ser uma forma de preparar objetivos financeiros de médio e longo prazo, como comprar uma casa ou começar a preparar a reforma.

Tenha em consideração que existem vários tipos de investimento, com diferentes níveis de risco e potencial de retorno. Por exemplo, nos investimentos com garantia de capital, por norma não se perde o montante aplicado. Já quando não existe garantia de capital, pode perder parte ou a totalidade do dinheiro investido.

Também é importante considerar a liquidez, ou seja, a facilidade e rapidez com que consegue transformar um investimento em dinheiro. Alguns produtos podem ser mobilizados com relativa facilidade (como é o caso dos certificados de aforro ou das ações), enquanto outros podem exigir mais tempo ou implicar custos para recuperar o dinheiro investido.

Antes de investir, há algumas regras essenciais que deve conhecer:

  • Informe-se sobre cada investimento, nomeadamente sobre riscos, custos, garantia de capital, rentabilidade e condições de resgate;
  • Invista de acordo com o seu perfil de risco e a sua capacidade para suportar eventuais perdas;
  • Recorra apenas a entidades autorizadas, como bancos ou intermediários financeiros registados na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM);
  • Acompanhe regularmente os investimentos, verificando se continuam adequados aos seus objetivos.

Como evitar erros financeiros comuns?

Quando começa a assumir a responsabilidade pela gestão da sua mesada ou do seu salário, é normal cometer alguns erros. Alguns podem ter pouco impacto, mas outros podem comprometer o equilíbrio das suas finanças a médio e longo prazo.

Conheça alguns dos erros financeiros mais comuns:

  • Não saber quanto ganha e quanto gasta por mês;
  • Gastar mais do que ganha;
  • Não acompanhar os movimentos das contas bancárias e dos cartões de crédito, dificultando a deteção de operações que não reconhece;
  • Não poupar regularmente, mesmo quando tem margem para o fazer;
  • Não criar um fundo de emergência para fazer face a despesas inesperadas;
  • Recorrer ao crédito por impulso, sem avaliar previamente se consegue suportar os encargos;
  • Adiar decisões financeiras importantes ou ignorar sinais de alerta, como o aumento das dívidas ou a dificuldade em pagar despesas.

Quando faz sentido recorrer ao primeiro crédito?

Mesmo com uma boa gestão financeira, há despesas de valor elevado que podem ser difíceis de suportar apenas com as poupanças. Comprar uma casa ou um carro, fazer obras ou investir numa formação são alguns exemplos. O crédito pode, nestes casos, ser uma forma de financiar uma despesa que não consegue pagar de uma só vez.

No entanto, recorrer ao crédito deve ser uma decisão ponderada. É importante distinguir entre um crédito necessário e responsável e um empréstimo contraído por impulso ou para fazer face a despesas que não consegue suportar.

Recorrer a crédito: quando sim e quando não?
Pode fazer sentido para:
→ Comprar casa;
Comprar carro;
Fazer obras;
Tirar um curso ou fazer uma formação;
→ Financiar uma despesa importante quando tem rendimentos e capacidade financeira para suportar o crédito.
Não faz sentido para:
Pagar dívidas;
→ Financiar compras ou despesas que não pode suportar;
→ Aumentar o rendimento disponível para fazer face às despesas do dia a dia.  

Antes de contratar um empréstimo, deve avaliar se consegue pagar a prestação todos os meses sem comprometer o equilíbrio do seu orçamento. Tenha também em conta os riscos de incumprimento e sobreendividamento, bem como asconsequências de não pagar um empréstimo.

Que créditos existem para diferentes objetivos?

Existem vários tipos de créditos, destinados a diferentes necessidades e projetos, com prazos, taxas de juro e condições de reembolso distintos.

Por exemplo, um crédito habitação tem, geralmente, um prazo de reembolso muito mais longo do que um crédito para férias. Já dentro do crédito ao consumo, as condições podem variar consoante a finalidade do financiamento, como a compra de um carro, a realização de obras ou o pagamento de despesas de educação.

De forma resumida, estes são alguns dos principais tipos de crédito:

Tipo de créditoPara que servePrazo de reembolso
Crédito habitaçãoFinanciar a compra de casa para habitação própria e permanente ou pagamento do sinal.Até 35 ou 40 anos, dependendo da idade do titular.
Crédito pessoal sem finalidade específicaFinanciar diferentes tipos de despesas e projetos.Até 7 anos
Crédito pessoal com finalidade definidaFinanciar despesas específicas, como eficiência energética, saúde ou educação.Até 10 anos
Crédito automóvelFinanciar a compra de um carro.Até 10 anos
Crédito renovávelTer um montante de crédito disponível para utilizar de forma flexível, como acontece nas linhas de crédito ecartões de crédito.Duração indeterminada

As condições concretas, incluindo a taxa de juro e o montante disponível, dependem do tipo de crédito e da instituição financeira. Por isso, antes de escolher uma solução, é importante comparar as diferentes opções e avaliar o impacto da prestação no orçamento.

Além disso, importa referir que quando se têm vários empréstimos ativos, existe a possibilidade de juntar todos num só, através da consolidação de créditos. Esta solução permite renegociar as condições dos empréstimos e simplificar a gestão dos respetivos pagamentos. [2]

Como saber se consegue pagar um empréstimo?

Antes de pedir um crédito, é essencial avaliar não só as condições do empréstimo, mas também a sua capacidade para assumir mais uma despesa mensal. Prazo, taxa de juro e valor da prestação são alguns dos fatores que deve analisar antes de assinar o contrato.

Para perceber se está financeiramente preparado para pedir um empréstimo, siga estes passos:

  • Avalie a estabilidade dos seus rendimentos e perceba se consegue manter o pagamento da prestação mesmo perante uma redução temporária dos rendimentos;
  • Garanta que tem margem financeira no orçamento para suportar possíveis despesas inesperadas;
  • Compare diferentes propostas, tendo em conta não apenas o valor da prestação, mas o custo total do crédito;

Como melhorar a sua literacia financeira?

A literacia financeira pode ser desenvolvida ao longo do tempo, através de informação credível e de conteúdos práticos. Na verdade, existem várias formas de aprofundar os seus conhecimentos financeiros, nomeadamente:

  • Ouvir podcasts e outros conteúdos educativos, como os disponibilizados pelo Banco de Portugal;
  • Participar em cursos, workshops ou ações de formação sobre finanças pessoais;

O que achou?