Controlar as finanças: estratégias para os últimos meses do ano
Índice de conteúdos:
- Porque é mais difícil controlar as finanças nos últimos meses do ano?
- Que estratégias ajudam a controlar as finanças nos últimos meses do ano?
- Vale a pena começar já a preparar o ano seguinte?
- Como fazer um balanço financeiro no final do ano?
Depois da descompressão (quase) total das férias de verão, o orçamento familiar enfrenta um dos períodos mais exigentes do ano.
O regresso às aulas concentra várias despesas em poucas semanas e, para muitas famílias, seguem-se ainda renovações de seguros e a última prestação do IMI. Num piscar de olhos, chega também o Natal com presentes, refeições e viagens para preparar.
E a verdade é que este ciclo se repete todos os anos. E, apesar de estas despesas não serem imprevisíveis, é fácil chegar a esta altura sem estar preparado.
A boa notícia é que ainda vai a tempo de controlar as finanças e evitar que os últimos meses do ano desequilibrem o seu orçamento. Veja como, passo a passo.
Porque é mais difícil controlar as finanças nos últimos meses do ano?
A pressão sentida entre setembro e dezembro não surge de despesas novas ou inesperadas. O problema é que, em apenas quatro meses, pode concentrar-se uma parte significativa das despesas de todo o ano.
O regresso às aulas traz gastos com material escolar, livros, propinas, explicações e atividades extracurriculares. Depois, chegam as renovações de seguros e, para algumas famílias, também o pagamento do IMI e o IUC. Em dezembro, somam-se as despesas de Natal, com presentes, ceias e viagens para visitar a família.
Há ainda outros fatores, mais emocionais, que podem dificultar a gestão financeira. O cansaço acumulado ao longo do ano e um balanço menos positivo das resoluções de ano novo podem fazer diminuir a motivação para continuar a controlar as finanças.
Depois de meses a gerir o dia a dia, é fácil perder o fôlego precisamente quando mais é preciso e cair na lógica do “perdido por cem, perdido por mil”.
Isoladamente, nenhuma destas despesas é necessariamente difícil de gerir. O problema está em tratá-las como imprevistos quando, na realidade, sabemos que acontecem todos os anos e, muitas vezes, em alturas semelhantes.
Quando não existe preparação, o risco é esvaziar o fundo de emergência ou, em situações mais extremas, recorrer ao crédito ao consumo para pagar despesas já previstas. Isso pode criar uma bola de neve: chegar a janeiro com o orçamento do novo ano já comprometido por prestações relativas a despesas dos meses anteriores.
Mas nem tudo está perdido. Na verdade, ainda vai muito a tempo de organizar os últimos meses do ano. Sabendo quais são as principais despesas que se aproximam, é mais fácil antecipá-las, comparar preços e reservar dinheiro para cada uma.
Preparar as compras com tempo, em vez de decidir sob pressão, também ajuda a tomar melhores decisões. Por outro lado, comparar seguros com dois meses de antecedência, por exemplo, permite negociar, pedir simulações a várias seguradoras e decidir com mais calma.
O mesmo acontece com o Natal. Quem começa a comprar prendas em outubro e aproveita promoções ao longo de vários meses tende a gastar menos e com menos stress do que quem deixa tudo para a última semana.
Que estratégias ajudam a controlar as finanças nos últimos meses do ano?
O processo para atravessar esta fase de forma mais tranquila é simples, mas deve seguir uma ordem: primeiro, perceber onde estamos; depois, antecipar o que já sabemos que vai acontecer; e, por fim, acompanhar o orçamento no dia a dia.
1. Perceber onde está antes de planear o que vem a seguir
Tudo começa por um diagnóstico honesto da situação atual: quanto dinheiro lhe sobra, em média, no final de cada mês? Que dívidas tem e a que taxas? Quanto já conseguiu poupar este ano face ao que tinha planeado?
Este diagnóstico financeiro não precisa de ser complicado, mas é a base para tudo o resto. Pode começar por consultar os extratos bancários dos últimos três meses e perceber quanto gastou por categoria.
Também pode optar por um registo mais detalhado, acompanhando tudo o que entra e sai da conta a partir de agora.
Nesta altura, vale ainda a pena rever os objetivos financeiros definidos no início do ano. Poupar para férias, reforçar o fundo de emergência ou amortizar uma dívida são alguns exemplos. Quais foram cumpridos? Quais continuam em aberto? E quais ainda faz sentido tentar concretizar até dezembro?
Tenha em consideração que, por vezes, pode ser mais realista adiar alguns objetivos para o ano seguinte. O importante é tomar essa decisão de forma consciente, em vez de simplesmente os deixar cair porque as despesas dos últimos meses ocuparam todo o espaço disponível no orçamento.
Com esta visão, torna-se mais fácil definir duas ou três prioridades para o que resta do ano. Assim, são as nossas decisões, e não as despesas ou circunstâncias do momento, que orientam o orçamento até ao final do ano.
2. Antecipar as despesas que já sabe que vão acontecer
Esta é uma das etapas mais importantes do planeamento financeiro. A ideia é transformar as despesas previsíveis em números concretos, em vez de deixar que apareçam uma a uma como se fossem surpresas.
Para isso, faça uma lista das despesas que prevê ter entre setembro e dezembro, indicando, sempre que possível, a data e o valor estimado.
Para ajudar, deixo-lhe um exemplo pessoal que pode usar como base:
| Mês | Despesas típicas | Valor |
| Setembro | Material escolar, explicações e seguros a renovar. | 300€ |
| Outubro | IUC e mensalidades de atividades extracurriculares. | 500€ |
| Novembro | Compras antecipadas de Natal e reforço do PPR. | 2.500€ |
| Dezembro | Ceias, prendas, viagens e despesas de fim de ano. | 1.000€ |
No meu caso, quando fiz esta soma e planeamento pela primeira vez, percebi que as despesas do quadrimestre rondavam os 3.000 euros. Entre reforço do PPR, presentes de Natal, renovação de subscrições e serviços, seguros, IUC e material escolar – tudo somado – o valor era significativo.
Dividido pelos quatro meses, representava cerca de 750 euros por mês. Era um valor elevado, mas possível, uma vez que nesse período também recebia o meu 14.º salário, o chamado subsídio de Natal.
Mas, sem contar com esse rendimento adicional, se quisesse preparar estas despesas ao longo do ano, teria de colocar cerca de 250 euros por mês de lado.
A forma mais eficaz de colocar esta poupança em prática não é deixar esse dinheiro na conta à ordem, misturado com o valor destinado às despesas correntes, mas sim criar um “cofre” de poupança separado para cada despesa prevista.
Pode criar um cofre geral para as despesas do quadrimestre ou separar por categorias: um para o material escolar, outro para o seguro do carro e o IUC e outro para o Natal, por exemplo.
A maioria das aplicações bancárias também permite criar objetivos ou cofres com um nome próprio e configurar transferências automáticas mensais.
Desta forma, em vez de olhar para uma poupança genérica e tentar perceber se chega para tudo, sabe exatamente quanto já tem reservado para cada despesa. Quando chegar o momento de pagar, o dinheiro já está disponível e não é preciso tomar uma decisão de última hora.
Depois de identificar as despesas previstas, defina também limites mensais para categorias como alimentação, prendas ou transportes. Assim, consegue reservar à parte a margem destinada aos diferentes objetivos de poupança.
Esta antecipação permite ainda rever contratos e subscrições com tempo. Contacte os prestadores de serviços, procure condições melhores e avalie se continua a fazer sentido manter determinadas subscrições. Por vezes, uma chamada ou uma pesquisa rápida online pode representar uma poupança significativa nos meses seguintes.
Outra despesa de dezembro que merece atenção é o eventual reforço do PPR. Algumas pessoas deixam esta decisão para os últimos dias do ano para beneficiar da dedução à coleta no IRS. No entanto, esperar até ao final do ano pode trazer contratempos.
Conheço muitos casos em que, por terem esperado demasiado, a ordem só foi executada a 2 de janeiro, deixando de contar como dedução para o ano fiscal anterior. Por isso, vale a pena começar com antecedência a analisar se pretende reforçar o PPR, qual o valor e qual o produto escolhido.
Tenha ainda em conta que o limite da dedução depende das regras legais aplicáveis à idade e ao valor total das deduções à coleta já utilizadas, incluindo as relativas a PPR, saúde, educação e outras despesas. Por isso, antes de decidir o montante, confirme as deduções já efetuadas no Portal das Finanças.
3. Manter o controlo das finanças no dia a dia
Um planeamento feito com antecedência só funciona se for acompanhado até ao último dia do ano.
Registar as despesas à medida que acontecem permite perceber se está a cumprir o orçamento e corrigir desvios a tempo, em vez de descobrir apenas no final do mês que gastou mais do que devia.
Esta é também uma altura em que as compras por impulso tendem a aumentar. Saldos, Black Friday e outras promoções, associados à proximidade do Natal e à pressão do tempo, tornam mais fácil comprar sem pensar.
Antes de fazer uma compra que não estava prevista, experimente esperar 24 horas. Muitas vezes, o impulso desaparece. Se não desaparecer, pelo menos a decisão será tomada de forma mais consciente.
As promoções podem ser aproveitadas, mas sobretudo para compras que já estavam previstas. A pergunta a fazer é simples: compraria determinado produto pelo preço normal se precisasse realmente dele?
Se a resposta for não, a promoção não representa uma poupança. É apenas uma despesa extra disfarçada.
Vale a pena começar já a preparar o ano seguinte?
Sim. Preparar os meses do próximo ano com antecedência exige muito menos esforço do que tentar resolver tudo quando as despesas chegarem.
Por exemplo, distribuir despesas anuais por 12 meses é muito mais fácil do que tentar suportá-las em apenas quatro. Na prática, significa levar a ideia dos cofres de poupança um passo mais além.
Em vez de criar estes objetivos apenas em janeiro, pode começar em setembro e fazer transferências mensais de menor valor. Assim, quando chegar a setembro do próximo ano, os cofres do material escolar, dos seguros e do Natal já estarão preparados. O resultado? A pressão financeira diminui porque a poupança foi feita muito antes de as despesas chegarem.
O mesmo princípio pode ser aplicado ao PPR. Em vez de esperar por dezembro para decidir se pretende fazer um reforço, pode dividir o valor que pretende investir ao longo dos 12 meses e configurar uma transferência automática mensal. Assim, chega ao final do próximo ano com o reforço já realizado, sem depender de uma decisão de última hora.
Como fazer um balanço financeiro no final do ano?
Não somos uma empresa, mas o final do ano é uma boa altura para analisar os resultados financeiros dos últimos 12 meses e perceber o que funcionou e o que pode ser melhorado.
Não precisa fazer um relatório financeiro complexo. Pode começar por comparar o que gastou com o que tinha previsto no orçamento e retirar duas ou três conclusões práticas para o ano seguinte.
Para isso, olhe para os rendimentos, para as principais categorias de despesas e para a evolução da poupança. Onde teve os maiores desvios? Que estratégias funcionaram? E quais não resultaram?
Se percebeu, por exemplo, que subestimou sistematicamente a categoria “lazer” ou que a poupança mensal só foi possível nos meses sem despesas extras, essa informação é importante para construir um orçamento mais realista no ano seguinte.
O balanço anual pode ainda ser uma oportunidade para rever a forma como está a utilizar a poupança. Por exemplo, pode avaliar se faz sentido direcionar parte do dinheiro para produtos potencialmente mais rentáveis ou se os reforços mensais dos investimentos de longo prazo continuam adequados aos seus objetivos.
No fundo, controlar as finanças não significa eliminar todas as despesas ou deixar de aproveitar o dinheiro. Significa saber o que vai gastar, preparar essas despesas com antecedência e tomar decisões conscientes ao longo do ano.
A diferença entre chegar ao final do ano com tranquilidade ou passar os últimos meses a “apagar fogos” financeiros pode estar simplesmente na antecipação. Criar desde janeiro um cofre para cada despesa previsível é muito mais fácil do que descobrir em outubro que precisa de reunir todo o dinheiro de uma só vez.
Fechar o ano com este balanço feito permite, por isso, começar a preparar o seguinte com mais informação, mais realismo e menos pressão.

