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Como fazer o planeamento financeiro para o novo ano

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Dama de Ouros
Dama de Ouros
Casal a fazer o planeamento financeiro para o novo ano

Índice de conteúdos:

  1. Parte 1: O balanço do ano que terminou
  2. Parte 2: O planeamento financeiro do novo ano

Janeiro é um mês que me entusiasma particularmente, pois é o momento perfeito para refletir sobre o que passou, analisar as finanças e preparar o planeamento financeiro para o novo ano. 

É nesta altura que olho para trás e analiso tudo o que aconteceu financeiramente, mas, mais importante, celebro as conquistas, aprendo com os erros e desenho o mapa do que quero alcançar nos próximos meses. 

E é exatamente isso que vamos fazer agora juntos. Neste artigo, mostro-lhe, passo a passo, como criar um planeamento financeiro realista e organizado, começando por perceber o que realmente aconteceu no ano que terminou. Preparado? 

Parte 1: O balanço do ano que terminou

Antes de planear o novo ano, é essencial perceber o que aconteceu no ano anterior. E aqui não vale recorrer a frases vagas como “acho que correu bem” ou “gastei demasiado dinheiro”. É preciso trabalhar com números concretos para ter uma visão realista.

Para isso, comece por refletir e responda às questões que se seguem. 

Passo 1: Quanto ganhou?

Pegue numa folha de papel ou abra uma folha de Excel e liste todos os rendimentos que obteve, nomeadamente: 

  • Rendimentos regulares:
    • Salário líquido × 12 meses (ou 14 meses, se recebe os subsídios em separado);
    • Subsídio de alimentação;
    • Subsídio de transporte;
    • Outros subsídios ou complementos.
  • Rendimentos extra:
    • Prémios de desempenho;
    • Trabalhos como freelancer;
    • Venda de produtos em segunda mão (Vinted, OLX, etc.);
    • Dividendos de ETF, ações ou fundos;
    • Juros de depósitos, certificados ou contas remuneradas;
    • Reembolso de IRS;
    • Presentes monetários;
    • Vendas de bens de maior valor;
    • Ou qualquer outra entrada de dinheiro que tenha passado pelas suas contas.

Se não fez este registo e, por isso, não tem os valores exatos, entre na aplicação do seu banco e reveja os extratos mês a mês. Dá trabalho, mas é uma etapa essencial.

Por fim, some tudo. O resultado obtido é o seu rendimento total do ano que terminou.

Passo 2: Quanto gastou? 

Aqui vem a parte que a maioria das pessoas teme ou simplesmente ignora, mas que é absolutamente crucial: perceber para onde foi o dinheiro.

Se utiliza uma aplicação para controlar as despesas ou uma folha Excel, este passo demora cerca de cinco minutos – é só juntar tudo e somar. Por outro lado, se ainda não utiliza (e depois da explicação que se segue vai ficar com vontade de registar tudo direitinho no próximo ano), tem duas opções:

Opção A – Análise detalhada (mais trabalhosa, mas necessária):

Abra novamente a sua aplicação bancária, mas desta vez registe e categorize todas as despesas dos últimos 12 meses. De seguida, reveja os totais de cada setor:

Opção B – Estimativa rápida (menos precisa, mas funcional):

Se a análise em detalhe com retroativos for demasiado complexa (compreendo que possa ser), pode abordar o ano de forma mais simplista e melhorar nos seguintes. Por exemplo, use a seguinte fórmula: 

Rendimento total – Poupança acumulada = Despesas aproximadas

Não lhe dá informações valiosas no que toca à utilização do seu dinheiro, mas pelo menos consegue saber como ficou a sua situação financeira. Poupou? Ficou a zeros? Gastou mais do que aquilo que recebeu?

Aqui o cálculo é simples: se ganhou 20.000 euros e gastou 18.000 euros, então sabe que poupou 2.000 euros.

Passo 3: Qual é o seu património líquido? 

O património é a soma de tudo o que tem, menos tudo o que deve. É este indicador que lhe mostra como está a evoluir a sua situação financeira.

E não importa se tem aumentos constantes no salário. Se o património se mantém igual ou até diminui, significa que está estagnado ou até em pior situação do que inicialmente. Assim, para esta análise, considere:

  • Ativos (o que possui): 
    • Dinheiro em contas bancárias; 
    • Investimentos (ETF, ações, fundos, certificados, etc.);
    • Poupanças (PPR);
    • Valor de imóveis (valor de mercado atual);
    • Valor de veículos (valor de mercado atual);
    • Outros bens de valor significativo.

De seguida, faça as contas, seguindo o exemplo abaixo. Os anos civis são meramente indicativos, pelo que deve considerar os anos imediatamente anteriores ao ano que se inicia.

ATIVOS 31/12/202431/12/2025Evolução
Contas bancárias10.500€12.800€+2.300€
Investimentos 45.000€58.500€+13.500€
Plano Poupança Reforma8.000€10.000€+2.000€
Carro10.000€8.500€-1.500€
Total de ativos73.500€89.800€+16.300€
PASSIVOS31/12/202431/12/2025Evolução
Crédito automóvel8.000€4.500€-3.500€
Total de passivos8.000€4.500€-3.500€
Património líquido 65.500€85.300€+19.800€

A evolução do património depende das nossas escolhas, mas também de fatores externos que nos ultrapassam, como variações nos mercados financeiros, alterações nas taxas de juro e até valorização do mercado imobiliário.

Se o resultado no final do ano for superior ao ponto de partida, pode ter crescido pela poupança, pela valorização de investimentos ou pela amortização de dívidas. Por outro lado, se o resultado for inferior, pode ter diminuído por quedas de mercado, grandes despesas, redução de rendimentos ou má gestão financeira.

Passo 4: Que objetivos financeiros tinha para o ano que terminou? Conseguiu alcançá-los?

A verdade é que fazemos resoluções de ano novo consecutivamente, mas muitas delas são esquecidas logo em fevereiro. Para garantir que o novo ano é diferente, precisa de mais um momento de honestidade. Assim, responda às seguintes questões. 

  • O que estava nos seus objetivos financeiros do ano que terminou?
  • O que conseguiu cumprir?
  • O que ficou a meio?
  • O que falhou totalmente e porquê? 

O objetivo não é martirizar-se com sentimentos de culpa, mas sim perceber o que correu bem, o que correu menos bem e aproveitar essas aprendizagens para melhorar o ano que se segue. 

Passo 5: Que surpresas (boas e más) teve?

Todos os anos trazem imprevistos e despesas inesperadas. Alguns destroem orçamentos, outros criam oportunidades. Tire uns minutos para refletir nas surpresas financeiras que surgiram ao longo do ano anterior. Deixo abaixo alguns exemplos, que poderão ajudar a desbloquear a sua memória:

  • Surpresas negativas:
    • Avarias;
    • Problemas de saúde;
    • Multas;
    • Custos familiares;
    • Reembolso de IRS inferior ao habitual.
  • Surpresas positivas:
    • Rendimentos extra;
    • Prémios;
    • Aumento salarial;
    • Oportunidades de venda;
    • Bónus pontuais.

Agora, liste todas as suas surpresas. Quantas delas podia ter previsto? E quantas foram verdadeiramente inesperadas? 

A resposta a estas questões vai ajudá-lo a planear melhor o novo ano. 

Passo 6: Qual foi a sua taxa de poupança?

A fórmula para calcular a taxa de poupança é simples, mas poderosa:

Taxa de poupança = (Rendimentos – Despesas) / Rendimentos × 100

Vamos a um exemplo prático para facilitar a compreensão:

  • Rendimentos: 25.150 euros
  • Despesas: 19.800 euros
  • Poupança: 5.350 euros
  • Taxa de poupança = 21%
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Este número permite-lhe perceber se está a viver acima das suas possibilidades, se tem margem para investir, se precisa de ajustar despesas e se o seu estilo de vida está alinhado com os seus objetivos.

Depois de chegar ao seu número, chega o momento de reflexão. Está satisfeito com o resultado? Há algo que gostaria de ter feito de forma diferente e que levaria a um resultado mais interessante?

Parte 2: O planeamento financeiro do novo ano 

Agora que tem uma visão clara do ano passado, podemos passar ao que realmente interessa: planear o próximo ano com base em informação real, e não em suposições.

Passo 7: Defina os seus objetivos financeiros

Baseado na análise anterior, que objetivos específicos e mensuráveis pretende atingir no próximo ano?

Antes de pensar sobre isso, conheça as características de um bom objetivo: 

  • Específico: por exemplo, “poupar 6.000 euros” em vez de “poupar mais”;
  • Mensurável: ou seja, que consegue acompanhar o progresso;
  • Realista: baseado nos seus rendimentos e despesas;
  • Com prazo: por exemplo, “até dezembro de 2026”. 

Tenha em consideração que os objetivos financeiros não têm de estar apenas relacionados com rendimentos ou orçamentos. Há muito a explorar, e deixo aqui possíveis metas a incluir, para diferentes categorias:

  • Dívidas:
    • Liquidar completamente o crédito automóvel;
    • Não usar o cartão de crédito;
    • Amortizar X euros extra no crédito habitação.
  • Património:
    • Atingir X euros de património líquido até ao final do ano;
    • Manter o fundo de emergência intocado. 

É importante que defina objetivos realistas, que consiga cumprir e manter ativos durante o ano. Para isso, escolha apenas o que realmente importa e foque-se em atingi-los.

Passo 8: Defina um orçamento anual e mensal

Com base nas despesas reais do ano anterior, defina um orçamento ajustado à sua vida para o novo ano que se inicia. Comece por:

  1. Projetar os rendimentos do novo ano: incluindo o salário, subsídio de alimentação, subsídios de férias e de Natal e outros rendimentos extra que preveja ter;
  2. Distribuir o rendimento com base nos seus objetivos: baseie-se nos objetivos e nas despesas reais do ano anterior e determine de que forma irá gastar esses rendimentos planeados;
  3. Ajustar o que for necessário: se as despesas ultrapassarem os rendimentos, pense em abordagens diferentes:
    >Cortar despesas: onde pode reduzir sem sacrificar qualidade de vida?
    > Aumentar rendimentos: que trabalhos extra pode fazer para aumentar os seus rendimentos? 
  4. Criar categorias específicas para objetivos: se pretende eliminar o crédito automóvel em junho, direcione os rendimentos extra para uma conta poupança destinada a esse objetivo, por exemplo:
    > Subsídio de férias (junho): 1.000 euros;
    > Subsídio de Natal (novembro): 1.000 euros;
    > Poupança mensal dedicada: 300 euros × 12 = 3.600 euros;
    > Total: 5.600 euros(suficiente para os 4.500 euros + margem).

Passo 9: Automatize tudo o que puder

A melhor forma de garantir consistência é criar sistemas, nomeadamente:

  • Transferências automáticas para poupança e investimento;
  • Débitos diretos para despesas fixas;
  • Contas correntes para despesas variáveis, apenas com o valor planeado;
  • Aplicações para registar todos os gastos ao longo dos meses. 

Desta forma, a poupança acontece antes de ter oportunidade de gastar o dinheiro. É o chamado “Pague-se a si primeiro”. E com um sistema de registo das entradas e saídas de dinheiro, facilita muito a análise de todos estes números.

Deixo-lhe algumas sugestões das estratégias que utilizo no meu dia a dia:

  • Transferências automáticas configuradas no homebanking;
  • Débitos diretos para todas as despesas fixas previsíveis;
  • Aplicações financeiras para registar despesas variáveis em tempo real.

Passo 10: Crie o seu calendário financeiro

Para manter a organização, o ideal é criar um calendário financeiro que inclua:

  • Datas de impostos; (*este artigo será atualizado até à publicação do conteúdo)
  • Datas de subsídios;
  • Seguros anuais;
  • Grandes despesas previstas (férias, despesas escolares, etc.);
  • Objetivos com prazo;
  • Revisões mensais e trimestrais;
  • Balanço final na última semana do ano. 

Este sistema permite antecipar despesas grandes para não ser apanhado desprevenido em “custos surpresa” que, na verdade, podem ser programados e antecipados.

Siga o exemplo abaixo e comece a criar o seu próprio calendário financeiro:

MêsRendimentos extraDespesas extraAções
JaneiroCriar um calendário financeiro anual
FevereiroSeguros anuais
(500€)
Renovar/comparar seguros
MarçoInspeção do carro
(50€)
Levar o carro
à inspeção
AbrilFazer a revisão
trimestral do calendário
MaioPagamento
do IRS
Entregar o IRS
JunhoSubsídio férias
(1.000€)
Amortizar
o crédito automóvel
JulhoReembolso de IRS (caso não tenha
de pagar)
Férias
(800€)
Planear e organizar
as férias
AgostoFazer a revisão
trimestral do calendário
SetembroRegresso às aulas
(600€)
Planear as compras
do regresso às aulas
OutubroReforçar investimentos
NovembroSubsídio de Natal
(1.000€)
Presentes de Natal
(300€)
Planear as compras
de Natal
DezembroJantares de Natal
(200€)
Fazer o balanço anual

Passo 11: Defina os seus “checkpoints” para o novo ano

Não espere até dezembro para ver se está no caminho certo. O ideal é ter pontos de verificação intermédios, para confirmar que tudo está a correr de acordo com o planeado.

  • Revisão mensal (30 min):
    • Registou todas as despesas?
    • Cumpriu o orçamento? Se não cumpriu, qual foi o motivo?
    • Fez as transferências automáticas?
    • Está no caminho certo para alcançar os seus objetivos anuais?
  • Revisão trimestral (2 horas, em abril e agosto):
    • Cálculo da percentagem de progresso em cada objetivo;
    • Cálculo do património líquido;
    • Reavaliação de prioridades;
    • Ajustes necessários ao orçamento;
    • Oportunidades de otimização. 

Passo 12: Prepare-se para os obstáculos

Vamos ser realistas: nem tudo vai correr como planeado. E está tudo certo, é a vida a acontecer. O importante é trabalhar a sua flexibilidade e agilidade.

Os imprevistos vão sempre acontecer e o segredo para o sucesso é ajustar o que for necessário quando eles surgem, em vez de abandonar o plano. Assim, para cada possível obstáculo, há várias formas de agir:

  • “Não estou a conseguir cumprir o orçamento”:
    • Reveja após 2-3 meses se foi demasiado ambicioso;
    • Identifique a categoria problemática;
    • Ajuste de forma realista (melhor 80% de sucesso do que 0%).
  • “Apareceu uma despesa inesperada elevada”:
    • Use o fundo de emergência (é para isso que ele existe);
    • Planeie como o vai repor.
  • “Recebi um aumento/rendimento extra”:
    • Atualize o orçamento de acordo com o novo rendimento.
  • “Sinto-me desmotivado a meio do ano”:
    • Releia os seus objetivos e lembre-se do porquê de ter definido cada um;
    • Celebre as pequenas vitórias;
    • Junte-se a comunidades de finanças pessoais para aumentar a motivação.
  • “Mudou tudo (novo emprego/casa/bebé)”:
    • Refaça o seu orçamento de acordo com a nova realidade;
    • Ajuste os objetivos se necessário (não é falhar, é adaptar).

Este é o momento: está pronto para colocar em prática o seu planeamento financeiro do novo ano

Eu sei que fazer este exercício de balanço e planeamento financeiro não é algo divertido. Não é agradável passar horas a analisar extratos bancários e a fazer contas. Mas se há coisa que este processo lhe permite ganhar, é controlo, clareza e liberdade. 

Ao fazer esta análise, saberá exatamente onde está e para onde vai, através de informação realista que o ajuda a fazer escolhas mais conscientes. E mais: garante que não chega a dezembro a perguntar “para onde é que foi o dinheiro?”. 

Daqui a um ano, quando estiver a fazer este mesmo exercício para planear o ano seguinte, vai olhar para trás e agradecer. Vai conseguir ver progresso, objetivos atingidos e um património a crescer. Garanto que ficará feliz por ter começado agora. 

E mesmo que não atinja 100% dos seus objetivos, vai estar muito melhor do que se não tivesse planeado nada, isso é garantido. 

Vamos fazer do novo ano o seu melhor ano financeiro de sempre? O seu “eu do futuro” vai agradecer-lhe. 

O que achou?