Subida de preços: por que a guerra afeta a economia global?
Índice de conteúdos:
- Por que sobem os preços durante uma guerra?
- Qual o impacto da guerra no custo de vida das famílias?
- Como combater a subida de preços?
A subida de preços e a guerra caminham, muitas vezes, lado a lado. Embora nem todos os aumentos possam ser explicados por conflitos, a verdade é que existe, de facto, uma relação direta entre ambos.
Quando ocorre uma guerra, sobretudo em regiões estratégicas para a produção e distribuição de alimentos, combustíveis ou energia, os impactos económicos tornam-se inevitáveis, refletindo-se no aumento dos preços de bens e serviços. Consequentemente, os orçamentos familiares acabam por ser afetados, tanto a curto como a médio e longo prazo.
Afinal, por que sobem os preços durante uma guerra?
Além da perda de vidas humanas e da destruição, uma guerra tem um enorme impacto na economia. Um impacto que não se limita aos países diretamente envolvidos, mas também a países vizinhos, parceiros comerciais e outros cujas economias dependam de produtos ou serviços que tenham origem nessa região.
Foi o que sucedeu, por exemplo, com a guerra na Ucrânia, devido aos problemas com o abastecimento de gás natural e cereais. Ou, mais recentemente, com o conflito no Irão e as dificuldades com a passagem de navios que transportam petróleo e derivados. A oferta reduz, mas a procura mantém-se, o que causa pressão no preço.
Em ambos os casos verificaram-se aumentos nos preços da energia e dos combustíveis, o que causa um “efeito dominó”: aumentam os custos com transportes e com produção em vários setores, o que se reflete no preço final cobrado aos consumidores.
A edição de abril de 2026 do The World Economic Outlook (WEO) do Fundo Monetário Internacional (FMI) refere alguns dos efeitos da guerra na economia global:
- Ruturas nos sistemas produtivos, no comércio e no investimento;
- Nos primeiros anos de um conflito, as economias mais próximas registam frequentemente quedas moderadas na produção;
- O agravamento das tensões geopolíticas leva a que os governos invistam mais em defesa e segurança, dando menos atenção a outras áreas;
- As exportações caem;
- A incerteza retrai o investimento, pelo que há maior necessidade de financiamento;
- A atividade económica cai acentuadamente nos países onde ocorrem combates e o impacto negativo prolonga-se durante vários anos.
Qual o impacto da guerra no custo de vida das famílias?
O aumento dos preços é um dos efeitos mais imediatos do impacto da guerra. Dois exemplos recentes comprovam esta realidade.
Em 2022, devido à guerra na Ucrânia, os preços da eletricidade atingiram níveis históricos, o que, por sua vez, teve um impacto direto noutros setores, como a indústria, o que se refletiu nos preços ao consumidor. Este conflito teve ainda outro efeito imediato: como a Ucrânia era considerada “o celeiro da Europa”, a quebra nas exportações de cereais não só fez subir os preços, como agravou a crise alimentar mundial.
Nesse mesmo ano, a inflação em Portugal atingiu 7,8%, o valor máximo em 30 anos. Os preços mais altos levaram a que o Banco Central Europeu (BCE) subisse as taxas de juro para tentar conter a tendência inflacionária. O que, por sua vez, fez subir a Euribor e as taxas dos créditos, aumentando as prestações de crédito.
Outro exemplo é a Guerra no Irão. Um dos efeitos quase imediatos foi a subida do preço dos combustíveis, o que acaba por arrastar outros setores para uma tendência de subida. Das viagens de avião até aos produtos alimentares (por causa do gasóleo e dos custos de transporte), praticamente toda a economia é afetada sempre que o petróleo e os seus derivados têm um aumento de preço.
As previsões do Banco de Portugal, comunicadas através do Boletim Económico de março de 2026, ajudam a perceber o impacto da guerra no Irão na economia portuguesa:
- A atividade económica em Portugal deverá crescer a um ritmo mais baixo em 2026;
- A inflação deverá aumentar de 2,2% no primeiro trimestre para 3,1% no segundo trimestre;
- O consumo privado deverá desacelerar (menos consumo pode gerar menos produção e, a médio prazo, menos emprego);
- Caso se mantenha o cenário de guerra e inflação, o aumento das taxas de juro pode condicionar o acesso das famílias ao crédito para consumo;
- Uma subida das taxas de juro pode consolidar a tendência de aumento da poupança;
- O aumento da inflação pode travar a evolução dos salários.
Como combater a subida de preços?
A subida dos preços devido à guerra pode ser uma ameaça ao seu orçamento familiar, mas também pode ser uma oportunidade para rever algumas despesas e reorganizar a sua vida financeira.
Conheça, abaixo, algumas estratégias que pode aplicar.
Despesas domésticas
Uma boa dica para enfrentar a subida de preços é conhecer as suas despesas e os seus rendimentos, dando os passos necessários para que exista um equilíbrio. Ou seja, para que os seus gastos sejam inferiores às despesas e exista ainda uma margem para poupar. Eis algumas dicas para encontrar esse equilíbrio:
- Faça um orçamento familiar (pode recorrer a um excel ou usar apps de finanças pessoais);
- Reveja contratos de serviços (energia, telecomunicações e seguros). Aqui, é importante que faça simulações e compare propostas para encontrar a opção mais vantajosa às suas necessidades;
- Cancele subscrições de serviços não essenciais ou que já não usa;
- Planeie as compras de supermercado;
- Aproveite promoções e descontos (por exemplo, os produtos que estão a aproximar-se do fim do prazo de validade costumam ter preços mais baixos);
- Compre de forma inteligente ao pesquisar e comparar preços, comprar a granel ou escolher marcas brancas;
- Adote hábitos de poupança de energia e de água.
Combustível e transportes
As despesas com combustíveis e transportes representam, regra geral, uma grande fatia do orçamento das famílias. E a verdade é que quando ocorre uma subida nos preços dos combustíveis, pode ser ainda mais difícil gerir os gastos mensais. Conheça algumas estratégias para poupar com deslocações:
- Aposte no sistema de carpooling para as deslocações diárias;
- Use os transportes públicos;
- Aproveite os descontos em transportes públicos;
- Em distâncias mais curtas, troque o carro por um meio de transporte mais económico, como a bicicleta ou trotinete;
- Antes de abastecer, compare preços, recorrendo à plataforma Preço dos Combustíveis;
- Não abasteça nas horas de calor;
- Quanto mais pesado estiver o carro, mais combustível irá gastar. Por isso, arrume a mala e retire tudo o que não for necessário para conseguir poupar combustível.
Créditos, poupanças e investimentos
Num contexto de subida dos preços, há tendência para aumentos das taxas de juro. O que tem vantagens para quem aplica o dinheiro em poupanças e desvantagens para quem tem prestações de crédito.
Assim, e começando por quem tem algum dinheiro disponível para poupar ou investir, pode ser interessante aproveitar uma eventual subida dos juros para reforçar depósitos ou investir em certificados de aforro. São opções praticamente sem risco (no caso dos depósitos, estão garantidos até aos 100.000 euros), que podem ser usadas para criar um fundo de emergência.
Caso tenha créditos, as taxas de juro mais altas não são uma boa notícia. Ainda assim, há algumas estratégias que pode aplicar para reduzir o impacto:
- Analise as condições dos seus créditos e, se encontrar uma opção mais vantajosa, pense em transferir o empréstimo;
- Pondere recorrer à consolidação de créditos;
- Se sentir dificuldades para pagar as prestações, acione o PARI (Plano de Ação para o Risco de Incumprimento);
- Se está numa fase inicial do crédito (em que o peso dos juros na prestação é maior) e tem algum dinheiro disponível, considere fazer uma amortização;
- Contrate um seguro de proteção de crédito, para garantir alguma segurança em caso de desemprego ou doença;
- Caso esteja a pensar em contratar um crédito, simule a taxa de esforço antes de avançar.