Crise energética: causas, consequências e medidas de ação
A crise energética ocorre quando a oferta de energia não consegue responder à procura dos consumidores. Perante riscos de cortes no abastecimento ou racionamento, são tomadas medidas para reduzir os consumos.
Outra consequência da crise energética é a subida dos preços da eletricidade, gás natural e combustíveis. O que torna ainda mais importante uma boa gestão destes recursos, de forma a evitar o desperdício e um aumento de despesas.
O que é a crise energética?
Em rigor, uma crise energética só se verifica quando não existe energia disponível para responder à procura. Foi o que aconteceu a 28 de abril de 2025, quando um “apagão” deixou Portugal e Espanha sem eletricidade.
Nesse dia, o Governo declarou uma “situação de crise energética”. Esta declaração permitiu tomar medidas excecionais adequadas a “garantir os abastecimentos energéticos essenciais ao funcionamento dos serviços essenciais de interesse público e das necessidades fundamentais da população”.
Em 2026, o conflito no Médio Oriente trouxe a ameaça de uma nova crise energética – tal como aconteceu no início da Guerra da Ucrânia. Por isso, mais do que gerir uma efetiva falta de energia (como aconteceu no apagão), é importante prevenir um cenário em que se verifiquem cortes ou racionamentos.
“Atualmente, não existem sinais de escassez, mas há pressão suficiente para exigir redução de consumos, uso eficiente e prevenção de desperdício, a fim de reduzir custos e reforçar a segurança do sistema”, explica a ADENE – Agência para a Energia no Manual Poupança – Crise Energética, lançado a 9 de abril.
Quais as causas do aumento dos preços perante uma crise energética?
Os preços da energia e combustíveis são bastante influenciados por questões geopolíticas. Em 2022, a Guerra na Ucrânia levou a União Europeia (UE) a eliminar a dependência dos combustíveis fósseis russos. Nessa altura, os preços da energia alcançaram máximos históricos. Décadas antes, em 1979, a revolução iraniana causou um choque petrolífero global, com efetiva escassez de petróleo.
Em 2026, o Irão volta a estar no centro de uma crise energética. O conflito afeta não só vários países do Médio Oriente, mas também grande parte do mundo, uma vez que o bloqueio no Estreito de Ormuz impede o fluxo de bens como petróleo, derivados e gás natural.
Esta escassez levou a um aumento dos preços desses produtos nos mercados internacionais: num só mês, o Brent (que serve de referência ao preço do petróleo) subiu 36% e o e o preço do gás europeu aumentou mais de 60%.
Estas subidas traduzem-se nos preços a pagar pelos consumidores, sejam famílias, empresas ou serviços públicos.
Quais as consequências da crise energética em Portugal?
Portugal acaba por sofrer as consequências da crise energética global. Apesar do enorme peso que as energias renováveis já têm na eletricidade que consumimos – que representaram 80,4% do consumo no primeiro trimestre do ano –, existe ainda uma grande dependência externa de combustíveis fósseis. Segundo a ADENE, esta dependência verifica-se, sobretudo, nos transportes, o setor que mais energia consome no país.
Há ainda outro fator a ter em conta. O gás natural é frequentemente o fator que define o preço da eletricidade no Mercado Ibérico da Energia Elétrica (MIBEL). Por isso, quando o gás sobe devido à crise global, a fatura da luz também é mais elevada.
Além da subida do preço da eletricidade e do gás natural na fatura doméstica, uma crise energética pode vir a ter outras consequências:
- As viagens (em transporte próprio ou transporte público) ficam mais caras;
- Alguns serviços públicos e privados podem ajustar horários ou consumos (por exemplo, reduzir iluminação não essencial, praticar horários mais curtos ou ajustar a climatização);
- Preferência pelo teletrabalho ou semanas de trabalho mais curtas (quatro dias);
- Recomendações para carpooling, planeamento de rotas ou substituição de deslocações presenciais por reuniões remotas.
Quais as medidas adotadas pela União Europeia para combater a crise energética?
A Comissão Europeia apresentou, em março de 2026, algumas iniciativas para impulsionar o investimento em soluções nacionais de energia limpa, aumentar a resiliência e reduzir os preços da energia, nomeadamente:
- Criação da estratégia de investimento em energias limpas: em parceria com o Grupo do Banco Europeu de Investimento, apoia o investimento em projetos específicos de infraestruturas energéticas;
- Pacote “Energia dos Cidadãos”: o objetivo é reduzir as faturas de energia, incentivar os cidadãos a produzirem e partilharem as suas próprias energias limpas e lutar contra a pobreza energética. A legislação europeia vai simplificar a mudança de comercializador, baixar impostos e taxas nas faturas de eletricidade e obrigar a informações mais transparentes sobre as faturas e contratos de energia;
- Estratégia para os Pequenos Reatores Modulares (RLG): propõe ações que permitam aos Estados-Membros da UE que utilizam esta tecnologia implantar os primeiros pequenos reatores modulares operacionais no início da próxima década.
No que respeita a soluções mais imediatas para responder à crise energética, a Comissão Europeia recomenda aos Estados‑Membros que adotem medidas voluntárias de redução da procura. As recomendações passam pela limitação de deslocações não essenciais, adoção de alternativas de mobilidade, redução da velocidade e reforço do teletrabalho.
Quais as medidas aprovadas pelo Governo em Portugal?
Em Portugal, o Governo tomou já algumas medidas para tentar mitigar o aumento dos preços e as suas consequências. E tem já outras preparadas caso a União Europeia decrete uma situação de crise energética.
Assim, estão já em vigor:
- Redução do preço dos combustíveis, através da redução do Imposto Sobre Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP), sempre que o preço suba mais de dez cêntimos por litro (em comparação com a primeira semana de março);
- Aumento da comparticipação do Estado na Botija de Gás Solidária de 15 para 25 euros até ao final de junho;
- Fiscalização do mercado para combater a especulação de preços, com operações da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE) nas bombas de gasolina;
- Libertação de 10% das reservas estratégicas nacionais de petróleo para conter a escalada de preços;
- Apoios na aquisição de combustível para alguns setores (transporte de passageiros e mercadorias, táxis, setores agrícola, florestal, das pescas e da aquicultura, bombeiros voluntários e setor social).
Que medidas adicionais serão aplicadas se for decretada uma situação de crise energética?
Em março, perante o agravar da situação, o Governo preparou um conjunto de medidas a implementar se a União Europeia decretar uma situação de crise energética.
Estas medidas, esclarece o Comunicado do Conselho de Ministros, “deverão ser temporárias, limitadas ao período de vigência da declaração europeia, e devem minimizar a fragmentação do mercado interno, em situações como a atual subida dos preços do petróleo”. Serão acompanhadas por outras que têm como objetivo a redução dos consumos.
Assim, caso o cenário de crise se torne “oficial”, podem avançar soluções como:
- Fixação de preços da eletricidade;
- Proibição do corte de fornecimento aos consumidores em geral (domésticos, industriais, entre outros) durante litígios de faturação;
- Limitação das interrupções de fornecimento a consumidores economicamente vulneráveis;
- Obrigatoriedade de planos de pagamento ajustados à capacidade económica dos consumidores quando estes têm faturas de eletricidade em atraso;
- Manutenção automática da tarifa social ao mudar de comercializador;
- Limitação das interrupções do fornecimento em períodos críticos onde ocorram picos de consumo de energia (por exemplo, no inverno e no verão);
- Simplificação administrativa para quem pretender implementar autoconsumo.
20 dicas para poupar energia em casa
A subida dos preços da eletricidade e dos combustíveis e a ameaça de uma crise energética obrigam a algumas mudanças de hábitos. Neste seguimento, deixamos algumas dicas para gastar menos energia, poupar dinheiro e ajudar a diminuir a pressão sobre o consumo:
- Reveja as condições do seu contrato de energia (por exemplo, avalie se pode reduzir a potência contratada);
- Aproveite ao máximo a luz natural;
- Regule o frigorífico para 4 ºC e o congelador para −18 ºC;
- Desligue equipamentos em standby;
- Baixe a temperatura do esquentador e do termoacumulador;
- Use as máquinas de lavar roupa e louça apenas com a carga completa;
- Ajuste o ar condicionado;
- Feche os estores e as portadas ao final do dia durante o inverno e nas horas de maior calor no verão;
- Tome duches mais curtos;
- Utilize a climatização apenas nas divisões que está a usar;
- Se ligar o ar condicionado, feche as portas e janelas para concentrar o calor ou o frio;
- Use cortinas pesadas no inverno e leves no verão;
- Coloque fita isolante em portas e janelas;
- Opte por eletrodomésticos com eficiência energética A ou B;
- Sempre que possível, use programas “Eco” nas máquinas de lavar e secar;
- Não passe a louça por água quente antes de a colocar na máquina;
- Tape os tachos e panelas ao cozinhar;
- Aproveite o calor residual, desligando o fogão ou o forno uns minutos antes de acabar de cozinhar;
- Evite abrir desnecessariamente o forno e a porta do frigorífico;
- Use extensões com interruptor e desligue-as quando não estiverem a ser utilizadas.
Como poupar água? 10 dicas a colocar em prática
A eficiência hídrica também é importante, porque ao gastar menos água está a poupar o ambiente, mas também a consumir menos energia para a aquecer.
Conheça, de seguida, algumas dicas práticas para reduzir consumos:
- Feche a torneira enquanto se ensaboa;
- Instale redutores de caudal;
- Adeque a temperatura da água do sistema de aquecimento à estação do ano;
- Aproveite a água que é desperdiçada enquanto não está na temperatura ideal para o banho ou para lavar a louça;
- Lave o carro com menor frequência;
- Instale mecanismos de descarga dupla nos autoclismos;
- Regue o jardim após as 20h00 durante o verão e após as 17h00 no inverno;
- Utilize sistemas de rega gota a gota com sensores de humidade;
- Aproveite a água da chuva para regas e limpezas;
- Escolha plantas com baixa necessidade de rega, adaptadas ao clima.
Por fim, para evitar que uma crise de energia se transforme numa crise financeira doméstica, prepare o seu orçamento familiar para um período em que as despesas podem aumentar muito. Crie métodos de poupança mensal e comece a construir um fundo de emergência que permita enfrentar tempos mais desafiantes.