Preço dos combustíveis: qual o impacto no custo de vida familiar?
O preço dos combustíveis tem impacto nas contas das famílias, mesmo quando o carro não é o principal meio de transporte. Um aumento no preço da gasolina e do gasóleo vai aumentar a despesa mensal de quem usa transporte próprio, mas tem uma espécie de “efeito dominó” encarecendo outros bens e serviços essenciais.
Dos alimentos às férias, passando pela energia e até pelos juros dos créditos, gera-se uma tendência de subida que acaba por afetar os orçamentos familiares. O que explica este escalar dos preços e como lidar com estes aumentos? Descubra tudo neste artigo.
Quais os fatores que afetam o preço dos combustíveis?
Há vários fatores que influenciam o preço dos combustíveis, sendo um dos mais comuns a famosa lei da oferta e da procura. Ou seja, num cenário em que há escassez ou maior dificuldade em obter o produto ou a matéria-prima para o produzir, o preço fica mais caro.
Este tipo de situação é comum quando ocorrem conflitos nas regiões produtoras de petróleo, como é o caso do Médio Oriente.
Se olharmos para o preço da gasolina 95 (a mais comum em Portugal) desde o dia 1 de março – data de início da guerra no Irão – a tendência de subida é notória. Uma pesquisa no site Preço dos Combustíveis Online, da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) mostra que este combustível não parou de aumentar desde o início de março: a 28 de fevereiro custava 1,681 euros/litro e a 24 do de março já estava em 1,93 euros.
Além das cotações internacionais, que têm sido fortemente influenciadas por conflitos, há outros fatores que afetam o preço dos combustíveis. Conheça-os abaixo.
Taxas de câmbio
A cotação do dólar tem influência no preço do petróleo e dos produtos refinados, porque estes são negociados na moeda norte-americana. Quando o dólar sobe ou desce, o preço dos combustíveis tende a acompanhar estas flutuações.
Custos logísticos
Dizem respeito, por exemplo, ao transporte do petróleo até ao local onde vai ser refinado e, posteriormente, até às bombas de combustível.
Um bom exemplo da importância deste fator é a situação no estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Com esta passagem bloqueada, não só a matéria-prima encarece, como os custos operacionais aumentam.
Clima
A ocorrência de fenómenos extremos que interrompam a produção, refinação ou o transporte vai causar perturbações no abastecimento, o que faz aumentar o preço. Por outro lado, invernos muito frios vão aumentar o consumo de produtos petrolíferos; e quanto maior a procura, maior a tendência de subida do preço.
Impostos
Em Portugal, os impostos representam mais de metade do preço da gasolina. Segundo o relatório semanal “Combustíveis – Supervisão de preços”, entre 16 e 22 de março de 2026, os impostos tiveram um peso de 51,3% no preço da gasolina 95 simples e de 42,4% no do gasóleo.
Cada litro de combustível está sujeito a Imposto sobre Produtos Petrolíferos (ISP), que varia consoante o produto (gasolina, gasóleo, GPL, etc.). Uma das medidas para reduzir o impacto da subida dos preços dos combustíveis foi o desconto no ISP, ou seja, o Governo tem reduzido semanalmente o valor de uma das componentes deste imposto.
Além do ISP, os combustíveis pagam IVA, que incide sobre o custo do produto.
Outros fatores que influenciam o preço dos combustíveis são:
- A incorporação de biocombustíveis: para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, sendo que a percentagem é fixada anualmente;
- Manutenção das reservas: todos os operadores têm de ter reservas para o equivalente a 90 dias de consumo;
- Preço da semana anterior: em Portugal, os preços nos postos de abastecimento refletem a evolução das cotações da semana anterior.
Qual o impacto do preço dos combustíveis no orçamento familiar?
Quando os combustíveis aumentam, um dos impactos mais diretos é sentido sempre que vai abastecer o carro: o litro de gasolina ou de gasóleo está mais caro e precisa de gastar mais para encher o depósito ou para ter combustível suficiente para as viagens do dia a dia.
Assim, ir para o emprego ou levar os filhos à escola fica mais caro. Até pode não notar imediatamente esse aumento, mas se tiver um orçamento mensal ou tiver o hábito de monitorizar as suas despesas, chegará à conclusão que está a gastar mais.
Os transportes públicos também podem ficar mais caros – sobretudo se estiverem em causa operadores privados e os próprios serviços de entregas tendem a encarecer.
Se costuma usar veículos TVDE, é provável que sinta uma diminuição da oferta e um consequente aumento do preço. Segundo dados da Associação Portuguesa de Transportadores em Automóveis Descaracterizados (APTAD), em março cerca de 57% dos veículos que trabalham a combustão pararam porque, apesar dos aumentos dos combustíveis, as plataformas não aumentaram os preços. Segundo as contas da associação, são cerca de 1.500 viaturas paradas em Lisboa e no Porto, porque o preço pago pelas viagens não compensa os gastos.
Quem está a planear férias também pode ter de fazer ajustes ou até cortes no orçamento porque, além de alguns destinos estarem agora inacessíveis, os preços dos combustíveis para aviões e das viagens também aumentaram.
Em declarações ao jornal ECO, a Associação Nacional de Agências de Viagens (ANAV) revela que “os preços da aviação aumentaram em média 4%, enquanto nos voos de longa distância os valores atingem mais de 10%, sendo em caso excecionais possível chegar aos mais de 20%”.
Qual o efeito indireto nos preços de outros bens e serviços?
O aumento dos preços dos combustíveis tem igualmente um impacto indireto no valor que os consumidores vão pagar por outros produtos e serviços.
Uma subida no preço do gasóleo agrícola encarece a produção de alimentos. Como estes produtos vão ser depois transportados para os locais de venda, o custo acrescido do transporte pode vir a refletir-se no preço final no supermercado.
Por outro lado, uma subida no preço dos combustíveis pode também levar a uma subida no preço da energia, o que se vai refletir em mais custos não só para os consumidores domésticos, mas também para as empresas. O que, por sua vez, tem como consequência um aumento dos preços.
Adicionalmente, os preços dos bens e serviços, que estavam já a subir desde o início do ano, mantêm essa tendência. As previsões do Banco de Portugal (BdP) no Boletim Económico de Março apontam para uma inflação de 2,8% em 2026 (em 2025 ficou nos 2,3%), “refletindo o aumento das pressões de origem externa”, como o conflito no Médio Oriente.
O BdP estima igualmente que o crescimento económico fique aquém do esperado. “A deterioração do contexto internacional, na sequência do conflito no Médio Oriente, que implicou o aumento do preço dos bens energéticos e a expectativa de agravamento das condições de financiamento” são os motivos apresentados para uma estimativa de 1,8% (menos 0,5 pontos percentuais do que nas previsões do início do ano).
Menos crescimento implica menos consumo, mais dificuldades para as empresas e menos criação de emprego.
Qual a relação entre o preço dos combustíveis, inflação e aumento das taxas de juro?
Quando a inflação sobe, os bancos centrais, como o Banco Central Europeu (BCE) tendem a aumentar as taxas de juro dos empréstimos aos bancos comerciais. O que leva a que estes também subam as taxas dos créditos concedidos aos seus clientes.
Ou seja, num cenário de subida generalizada dos preços, as prestações dos empréstimos também sobem. Foi o que aconteceu recentemente, quando a guerra na Ucrânia desencadeou uma subida dos preços que, por sua vez, levou a que a Euribor registasse valores muito elevados.
Dicas e estratégias para reduzir o impacto do preço dos combustíveis
Perante a subida dos preços dos combustíveis, há algumas medidas que podem ajudar a reduzir o impacto destes aumentos no seu orçamento mensal e que também ajudam a poupar algum dinheiro num contexto em que tudo fica mais caro.
Estas são algumas dicas para poupar combustível e manter as contas equilibradas:
- Reduzir a utilização do carro para quando for realmente essencial;
- Usar mais vezes os transportes públicos;
- Implementar um sistema de boleias para o trabalho e para a escola (por exemplo, em cada semana um colega ou um pai dá boleia aos outros);
- Recorrer a apps de partilha de boleias;
- Caso não precise usar o carro frequentemente, pode recorrer ao car sharing (aluguer por curtos períodos de tempo);
- Recorrer, se possível, ao teletrabalho;
- Usar veículos mais eficientes, como carros elétricos, trotinetes ou bicicletas;
- Aproveitar descontos e cartões de fidelização para poupar nos abastecimentos;
- Abastecer fora das horas de maior calor, para evitar que o combustível se evapore;
- Planear as viagens;
- Conduzir de forma eficiente, evitando acelerações e travagens bruscas;
- Usar o cruise control na autoestrada;
- Cuidar da manutenção do veículo;
- Reduzir o peso do carro, esvaziando a mala e transportando apenas o essencial (quanto mais pesado o carro estiver, mais combustível gasta);
- Informar-se para saber onde o combustível é mais barato, consultando a plataforma Preço dos Combustíveis.
Há ainda estratégias que ajudam a poupar nas despesas mensais. Ou seja, pequenos gestos que fazem com que gaste menos e permitem ter o orçamento mais controlado:
- Fazer um orçamento mensal ou recorrer a apps que ajudam a gerir o seu dinheiro;
- Comparar preços;
- Anular subscrições de serviços que não usa;
- Renegociar contratos de seguros, telecomunicações e energia;
- Planear as refeições;
- Levar almoço e lanches para o trabalho;
- Fazer listas antes de ir ao supermercado;
- Comprar marcas brancas e produtos locais;
- Aproveitar descontos e promoções;
- Comprar roupa, móveis e outros artigos em segunda mão;
- Aproveitar atividades de lazer gratuitas;
- Usar lâmpadas e eletrodomésticos eficientes;
- Poupar energia;
- Renegociar ou consolidar créditos.