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Finanças para crianças: como criar o hábito de poupar desde cedo?

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Olga Teixeira
Olga Teixeira
As finanças para crianças ajudam a criar hábitos saudáveis desde cedo. Saiba como falar de dinheiro e ensinar os seus filhos

Índice de conteúdos:

  1. Porque é tão importante ensinar as crianças a poupar?
  2. O que ensinar em cada idade?
  3. Como incentivar o hábito de poupar no dia a dia?
  4. Como guardar e gerir a poupança das crianças?
  5. Quais os erros mais comuns dos pais ao ensinar sobre dinheiro?
  6. Como ensinar pelo exemplo?
  7. Perguntas frequentes sobre finanças para crianças

As finanças para crianças desempenham um papel importante na educação e no desenvolvimento de hábitos que podem fazer a diferença na vida adulta. Falar de dinheiro e poupança não tem de ser um tabu e ajuda a formar adultos mais preparados para gerir a sua vida financeira.

Em cada fase do crescimento, há novos conceitos de educação financeira a explorar. Desde cedo, as crianças podem aprender noções básicas sobre dinheiro. À medida que crescem, devem ser incentivadas a poupar e a compreender o valor do dinheiro. Mais tarde, quando ganham maior autonomia, é essencial ensiná-las a lidar com compras online, cartões e a evitar possíveis fraudes.

Descubra, neste artigo, por onde começar e conheça dicas práticas de finanças adaptadas a cada idade.

Porque é tão importante ensinar as crianças a poupar?

A educação financeira é essencial para que as crianças de hoje se tornem adultos mais preparados para lidar com o dinheiro, evitando problemas como o sobreendividamento ou a incapacidade de fazer face a despesas inesperadas.

O 4.º Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa, realizado em 2023, mostra que, entre os adultos, há ainda muitas lacunas em termos de conhecimentos sobre dinheiro:

  • Apenas 55% dos entrevistados compreendem a relação entre poder de compra e inflação;
  • Só 39,1% conseguem calcular corretamente juros simples;
  • Apenas 24,2% respondem corretamente a questões sobre juros simples e juros compostos;
  • Apenas 46,4% compreendem que a conta ficaria a descoberto após um pagamento de determinado valor.

Estes dados mostram que a literacia financeira continua a ser um desafio, reforçando a importância de começar cedo. Assim, ensinar finanças às crianças é uma forma de evitar que, no futuro, tenham dificuldades em lidar com questões financeiras simples.

A literacia financeira para os mais novos tem, por isso, uma série de benefícios a médio e longo prazo:

  • Desenvolve a noção de valor do dinheiro;
  • Ensina a esperar e a poupar para determinados objetivos;
  • Ajuda a definir metas financeiras;
  • Reforça a diferença entre “querer” e “precisar”;
  • Constrói hábitos financeiros saudáveis e responsáveis;
  • Ensina as bases da poupança e do investimento;
  • Prepara para uma maior autonomia na vida adulta.

Educação financeira infantil: o que ensinar em cada idade?

Será que uma criança que ainda não sabe ler pode aprender conceitos básicos sobre dinheiro? A resposta é sim. Tal como um adolescente que já recebe mesada ou até trabalha nas férias pode – e deve – continuar a aprofundar conhecimentos.

Na prática, a educação financeira deve acompanhar o crescimento, adaptando-se à maturidade de cada fase. Veja, de seguida, como abordar o tema do dinheiro com crianças e jovens de diferentes idades, com exemplos simples e práticos para o dia a dia.

Dos 3 aos 6 anos: promover o contacto com o dinheiro

Ainda antes de saberem a ler, as crianças podem aprender algumas noções básicas. Nesta idade, é comum acharem que “ter mais moedas do que notas” significa ter mais valor ou não percebem que, ao gastar, o dinheiro desaparece e não é reposto.

Por isso, nesta fase, o foco deve estar em conceitos simples e concretos, como:

  • Explicar que o dinheiro se ganha de trabalho ou tarefas;
  • Ensinar o conceito de troca (ou seja, de trocar dinheiro para comprar produtos ou serviços);
  • Perceber a diferença entre comprar, gastar e poupar;
  • Ensinar a reconhecer notas e moedas;
  • Explicar que o dinheiro é um bem valioso, que deve ser gerido e guardado.

Para facilitar a aprendizagem, utilize uma linguagem simples e acessível e valorize as pequenas conquistas da criança ao longo do processo.

Ideias de jogos e atividades práticas que pode aplicar dos 3 aos 6 anos:
Ter um mealheiro transparente que permita acompanhar o crescimento da poupança e perceber que, se gastar, este fica mais vazio;
→ Separar moedas por valor;
→ Levar a criança às compras e pagar com dinheiro;
→ Brincar às compras em casa.

Dos 7 aos 10 anos: incentivar hábitos de poupança

Numa altura em que as crianças já frequentam a escola e começam a desenvolver competências matemáticas básicas, como somar, subtrair ou dividir, é importante reforçar os conceitos financeiros já adquiridos. Este é também o momento ideal para introduzir a ideia de poupança com objetivos concretos, ajudando também a distinguir entre “querer” e “precisar”.

Para isso, o foco deve ser:

  • Ensinar a diferença entre produtos mais caros e mais baratos;
  • Ajudar a distinguir entre necessidades e desejos;
  • Ajudar a definir os primeiros objetivos de poupança (por exemplo, juntar dinheiro para algo muito desejado no Natal);
  • Introduzir uma semanada como ferramenta de gestão do dinheiro;
  • Ensinar que o dinheiro também pode ser usado para experiências e para criar memórias (por exemplo, para fazer uma viagem), e não apenas para comprar bens materiais;
  • Incentivar a tomada de pequenas decisões financeiras (por exemplo, “preferes este brinquedo ou ir ao parque aquático no fim de semana?”).
  • Incentivar a espera antes de comprar (por exemplo, esperar pelos saldos, pelo fim do mês, pelo Natal, etc.).
Ideias de jogos e atividades práticas que pode aplicar dos 7 aos 10 anos:
→ Criar um orçamento fictício simples para gerir dinheiro “imaginário”;
→ Desafiar a ter dois mealheiros distintos (um para gastar e outro para poupar);
→ Incentivar a comparação de preços no supermercado ou em compras online;
→ Dar uma semanada associada a objetivos de poupança; 
→ Envolver a criança em decisões financeiras simples do dia a dia;
→ Explorar jogos como o Monopólio (indicado a partir dos oito anos) para ensinar a gerir o dinheiro de forma lúdica.

Dos 11 aos 14 anos: desenvolver a autonomia financeira

À medida que entram na adolescência, os jovens começam a ter maior contacto com o dinheiro, mas também podem tornar-se mais exigentes – por exemplo, com a compra de artigos de marca ou tecnologia. Por isso, esta é uma fase fundamental para reforçar a importância da gestão financeira, da poupança e do consumo responsável.

Neste seguimento, foque-se em:

  • Estabelecer uma mesada e ensinar a geri-la dentro de limites definidos;
  • Criar um orçamento simples, mas realista;
  • Ajudar a definir o que é ou não prioritário;
  • Incentivar o consumo responsável;
  • Ensinar a combater o desperdício.

Além disso, pode também introduzir e falar abertamente sobre erros financeiros comuns e incentivar a definição de objetivos de poupança mais ambiciosos e de médio prazo.

Ideias de jogos e atividades práticas que pode aplicar dos 11 aos 14 anos:
→ Criar um mini orçamento mensal real, com percentagens para gastos, poupança e investimentos;
→ Abrir uma conta jovem e explicar como funcionam as contas bancárias;
→ Simular um “banco familiar” para depósitos, levantamentos e controlo de saldo;
→ Estimular o desafio “Poupa X em 30 dias” com um objetivo concreto;
→ Permitir a gestão independente da mesada.

Dos 15 aos 17 anos: preparar para a vida adulta

De acordo com o relatório do 4.º Inquérito à Literacia Financeira da população portuguesa, os jovens entre os 16 a 24 anos são os que revelam menor preocupação com o planeamento e controlo do orçamento familiar.

Este dado não é surpreendente, tendo em conta que ainda não têm, em muitos casos, responsabilidades financeiras diretas. Como tal, e uma vez que estão cada vez mais autónomos – e até estão perto de ir para a faculdade – esta é uma boa altura para os preparar para a gestão da vida financeira.

Garanta que:

Nestas idades, é importante que mantenha um acompanhamento e orientação contínua, mas sem controlar demasiado.

Ideias de atividades práticas que pode aplicar dos 15 aos 17 anos:
→ Permitir a gestão autónoma de pequenas despesas do dia a dia;
→ Disponibilizar um cartão pré-pago com limite mensal definido;
→ Incentivar a participação em decisões financeiras familiares (por exemplo, onde abastecer para poupar combustível; qual o supermercado mais barato para fazer as compras do mês; etc.);
→ Simular um pequeno projeto de negócio com definição de custos e objetivos.

Como incentivar o hábito de poupar no dia a dia?

O hábito de poupar constrói-se ao longo do tempo e deve ser incentivado em qualquer idade. Nas crianças mais pequenas, pode começar por regras simples, como não desperdiçar comida ou poupar água. Já nos jovens mais velhos, passa por ensinar a gerir a mesada ou o dinheiro ganho em pequenas atividades ou part-time.

Estas são algumas estratégias práticas que pode aplicar no dia a dia:

  • Definir objetivos de poupança claros e motivadores (por exemplo, comprar um jogo para a consola ou fazer uma viagem);
  • Incentivar escolhas conscientes, evitando compras por impulso;
  • Promover a reparação e reutilização de objetos em vez de comprar novos (por exemplo, reutilizar mochilas e material escolar de anos anteriores que ainda estão em bom estado);
  • Atribuir uma mesada com regras simples e consistentes;
  • Incentivar a gestão do dinheiro recebido em datas especiais, garantindo sempre uma parte para poupança;
  • Celebrar pequenas metas de poupança atingidas;
  • Envolver as crianças e jovens nas compras do dia a dia e em decisões financeiras mais relevantes;
  • Criar desafios simples de poupança para estimular o hábito;
  • Falar abertamente sobre dinheiro, de forma natural e sem tabus;
  • Ensinar pelo exemplo.

Como guardar e gerir a poupança das crianças? 3 pontos a ter em conta

A gestão das poupanças das crianças e dos jovens é importante, não só para dar o exemplo, mas também para garantir que o dinheiro pode ser multiplicado. Reforçar a poupança é essencial, mas há mais que pode fazer.

Mealheiro ou conta poupança?

Cada uma destas opções tem vantagens e desvantagens, que pode comparar na tabela abaixo. Uma solução é manter o dinheiro no mealheiro até que atinja uma certa quantia, depositando-o depois no banco e começando uma nova poupança no mealheiro.

VantagensDesvantagens
Mealheiro→ A criança vê o dinheiro que poupa
→ Pode retirar dinheiro sempre que quiser
→ Não obtém rendimento com a poupança
Guardar dinheiro em casa não é tão seguro
Conta Poupança→ Obtém rendimento
→ O dinheiro está seguro pelo Fundo de Garantia de Depósitos
→ O dinheiro não está visível
→ Pode ter despesas de manutenção da conta

Quando abrir uma conta bancária infantil?

Muitos pais e avós optam por abrir uma conta bancária para as crianças assim que nascem, permitindo começar a poupar mais cedo. Desta forma, é provável que, quando o jovem atingir os 18 anos, tenha uma boa quantia acumulada.

Noutros casos, os pais preferem esperar até que os filhos sejam mais crescidos, para que possam envolvê-los no processo de abertura da conta.

Segundo o Banco de Portugal, não há uma idade mínima para abrir conta em nome de uma criança e é frequente que este tipo de contas não tenha comissão de manutenção.

Fast Fact: Uma conta de depósito em nome de um menor pode ser aberta pelos seus representantes legais (geralmente os pais), mas só pode ser movimentada livremente pelo jovem quando este atingir a maioridade. 

Como acompanhar a evolução da poupança?

Poupar é importante, mas acompanhar a evolução da poupança também ajuda a manter a motivação e a criar hábitos financeiros mais consistentes. Ver o dinheiro crescer ao longo do tempo permite às crianças e jovens perceber melhor o impacto das suas escolhas e da regularidade da poupança.

Além dos tradicionais depósitos a prazo e contas poupança, existem outras soluções, como os Planos Poupança Educação (PPE), que podem ser utilizados para financiar despesas futuras relacionadas com os estudos.

Para ajudar a definir objetivos e acompanhar resultados, o portal Todos Contam – do Plano Nacional de Formação Financeira – disponibiliza um simulador de poupança que pode usar para calcular:

  • O valor de uma poupança no final de um determinado período, depois dos reforços mensais ou anuais;
  • Quanto é necessário poupar para atingir um objetivo específico;
  • Quanto tempo pode demorar a alcançar uma determinada meta de poupança.

Quais os erros mais comuns dos pais ao ensinar sobre dinheiro?

Ensinar finanças às crianças e jovens nem sempre é fácil, até porque este é um tema que continua a não ser consensual. Além disso, e mesmo tendo as melhores intenções, os pais acabam muitas vezes por cometer alguns erros comuns. Por exemplo:

  • Evitar falar sobre dinheiro, tratando o tema como um tabu;
  • Ceder sempre que a criança pede alguma coisa, sem explicar limites;
  • Não estabelecer regras ou objetivos relacionados com a gestão do dinheiro;
  • Transmitir a ideia de que o dinheiro é ilimitado ou aparece “automaticamente”;
  • Dar a entender que a família tem um nível financeiro que não corresponde à realidade;
  • Usar o dinheiro como recompensa emocional;
  • Resolver constantemente os erros financeiros da criança, sem lhe permitir aprender com as consequências;
  • Não dar o exemplo através de hábitos de consumo e poupança responsáveis.

Mais do que grandes explicações teóricas, as crianças tendem a aprender através do comportamento que observam no dia a dia. Por isso, a consistência entre o que os pais dizem e aquilo que fazem é um dos fatores mais importantes no que toca a finanças para crianças.

Como ensinar pelo exemplo?

Para que as crianças ou jovens venham a ter uma relação saudável com o dinheiro, é importante que possam seguir um modelo. É verdade que toda a gente comete erros financeiros, mas há pequenos gestos do dia a dia que podem ajudar a dar um bom exemplo:

  • Mostrar hábitos de poupança, como levar comida de casa para o trabalho ou colocar regularmente dinheiro de parte para comer fora;
  • Explicar decisões financeiras de forma simples e adequada à idade, como “vamos comprar um carro usado porque é mais económico”;
  • Evitar compras por impulso e mostrar a importância de comparar preços;
  • Definir prioridades e explicar porque algumas despesas são mais importantes do que outras;
  • Criar objetivos familiares de poupança, como por exemplo “vamos poupar durante seis meses para as férias de verão” ou “vamos colocar este dinheiro no banco para usar quando fores para a faculdade”.  

4 perguntas frequentes sobre finanças para crianças

Ensinar as crianças a poupar e a lidar com o dinheiro não é uma ciência exata e ninguém tem todas as respostas. De qualquer forma, há algumas dúvidas que são mais fáceis de esclarecer. Estes são alguns exemplos.

Qual a melhor idade para começar a falar de dinheiro com as crianças?icon

Não há uma idade ideal, mas é importante que a criança tenha já alguma maturidade para compreender conceitos básicos. Por isso, entre os três e cinco anos será uma boa idade para começar. 

Qual o valor ideal a dar de semanada ou mesada?icon

Não existe um valor ideal. Tudo depende da idade da criança, da realidade financeira da família e dos objetivos de aprendizagem. O mais importante é ensinar responsabilidade, gestão do dinheiro e hábitos de poupança.

É boa ideia dar dinheiro às crianças em troca de tarefas domésticas?icon

As tarefas da casa devem, idealmente, ser vistas como responsabilidades familiares e não apenas como forma de ganhar dinheiro. No entanto, pode fazer sentido atribuir pequenas recompensas por tarefas extra ou objetivos específicos, desde que a criança perceba a diferença entre obrigação e recompensa.

O que dizer quando uma criança pergunta “Porque é que não posso ter isto?icon

Os pais devem ser sinceros e explicar que existe um orçamento e que, dentro do dinheiro disponível, há coisas que são prioritárias. Pode aproveitar para propor: “vamos poupar juntos para comprarmos”. 

5 recursos úteis para ensinar sobre finanças às crianças:
Museu do Dinheiro (Lisboa);
Museu do Papel Moeda da Fundação Cupertino de Miranda (Porto);
→ Cadernos de Educação Financeira, da Direção-Geral da Educação (pode fazer o download gratuito aqui);
→ Livro “Desperte o Génio Financeiro do Seu Filho”, de Cristina Judas;
→ Livro “O Dinheiro Não Cresce nas Árvores”, de Heath McKenzie.

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