Finanças para crianças: como criar o hábito de poupar desde cedo?
Índice de conteúdos:
- Porque é tão importante ensinar as crianças a poupar?
- O que ensinar em cada idade?
- Como incentivar o hábito de poupar no dia a dia?
- Como guardar e gerir a poupança das crianças?
- Quais os erros mais comuns dos pais ao ensinar sobre dinheiro?
- Como ensinar pelo exemplo?
- Perguntas frequentes sobre finanças para crianças
As finanças para crianças desempenham um papel importante na educação e no desenvolvimento de hábitos que podem fazer a diferença na vida adulta. Falar de dinheiro e poupança não tem de ser um tabu e ajuda a formar adultos mais preparados para gerir a sua vida financeira.
Em cada fase do crescimento, há novos conceitos de educação financeira a explorar. Desde cedo, as crianças podem aprender noções básicas sobre dinheiro. À medida que crescem, devem ser incentivadas a poupar e a compreender o valor do dinheiro. Mais tarde, quando ganham maior autonomia, é essencial ensiná-las a lidar com compras online, cartões e a evitar possíveis fraudes.
Descubra, neste artigo, por onde começar e conheça dicas práticas de finanças adaptadas a cada idade.
Porque é tão importante ensinar as crianças a poupar?
A educação financeira é essencial para que as crianças de hoje se tornem adultos mais preparados para lidar com o dinheiro, evitando problemas como o sobreendividamento ou a incapacidade de fazer face a despesas inesperadas.
O 4.º Inquérito à Literacia Financeira da População Portuguesa, realizado em 2023, mostra que, entre os adultos, há ainda muitas lacunas em termos de conhecimentos sobre dinheiro:
- Apenas 55% dos entrevistados compreendem a relação entre poder de compra e inflação;
- Só 39,1% conseguem calcular corretamente juros simples;
- Apenas 24,2% respondem corretamente a questões sobre juros simples e juros compostos;
- Menos de metade (46%) compreende a relação entre risco de investimento e diversificação da carteira de ações;
- Apenas 46,4% compreendem que a conta ficaria a descoberto após um pagamento de determinado valor.
Estes dados mostram que a literacia financeira continua a ser um desafio, reforçando a importância de começar cedo. Assim, ensinar finanças às crianças é uma forma de evitar que, no futuro, tenham dificuldades em lidar com questões financeiras simples.
A literacia financeira para os mais novos tem, por isso, uma série de benefícios a médio e longo prazo:
- Desenvolve a noção de valor do dinheiro;
- Ensina a esperar e a poupar para determinados objetivos;
- Ajuda a definir metas financeiras;
- Reforça a diferença entre “querer” e “precisar”;
- Constrói hábitos financeiros saudáveis e responsáveis;
- Ensina as bases da poupança e do investimento;
- Prepara para uma maior autonomia na vida adulta.
Educação financeira infantil: o que ensinar em cada idade?
Será que uma criança que ainda não sabe ler pode aprender conceitos básicos sobre dinheiro? A resposta é sim. Tal como um adolescente que já recebe mesada ou até trabalha nas férias pode – e deve – continuar a aprofundar conhecimentos.
Na prática, a educação financeira deve acompanhar o crescimento, adaptando-se à maturidade de cada fase. Veja, de seguida, como abordar o tema do dinheiro com crianças e jovens de diferentes idades, com exemplos simples e práticos para o dia a dia.
Dos 3 aos 6 anos: promover o contacto com o dinheiro
Ainda antes de saberem a ler, as crianças podem aprender algumas noções básicas. Nesta idade, é comum acharem que “ter mais moedas do que notas” significa ter mais valor ou não percebem que, ao gastar, o dinheiro desaparece e não é reposto.
Por isso, nesta fase, o foco deve estar em conceitos simples e concretos, como:
- Explicar que o dinheiro se ganha de trabalho ou tarefas;
- Ensinar o conceito de troca (ou seja, de trocar dinheiro para comprar produtos ou serviços);
- Perceber a diferença entre comprar, gastar e poupar;
- Ensinar a reconhecer notas e moedas;
- Explicar que o dinheiro é um bem valioso, que deve ser gerido e guardado.
Para facilitar a aprendizagem, utilize uma linguagem simples e acessível e valorize as pequenas conquistas da criança ao longo do processo.
| Ideias de jogos e atividades práticas que pode aplicar dos 3 aos 6 anos: → Ter um mealheiro transparente que permita acompanhar o crescimento da poupança e perceber que, se gastar, este fica mais vazio; → Separar moedas por valor; → Levar a criança às compras e pagar com dinheiro; → Brincar às compras em casa. |
Dos 7 aos 10 anos: incentivar hábitos de poupança
Numa altura em que as crianças já frequentam a escola e começam a desenvolver competências matemáticas básicas, como somar, subtrair ou dividir, é importante reforçar os conceitos financeiros já adquiridos. Este é também o momento ideal para introduzir a ideia de poupança com objetivos concretos, ajudando também a distinguir entre “querer” e “precisar”.
Para isso, o foco deve ser:
- Ensinar a diferença entre produtos mais caros e mais baratos;
- Ajudar a distinguir entre necessidades e desejos;
- Ajudar a definir os primeiros objetivos de poupança (por exemplo, juntar dinheiro para algo muito desejado no Natal);
- Introduzir uma semanada como ferramenta de gestão do dinheiro;
- Ensinar que o dinheiro também pode ser usado para experiências e para criar memórias (por exemplo, para fazer uma viagem), e não apenas para comprar bens materiais;
- Incentivar a tomada de pequenas decisões financeiras (por exemplo, “preferes este brinquedo ou ir ao parque aquático no fim de semana?”).
- Incentivar a espera antes de comprar (por exemplo, esperar pelos saldos, pelo fim do mês, pelo Natal, etc.).
| Ideias de jogos e atividades práticas que pode aplicar dos 7 aos 10 anos: → Criar um orçamento fictício simples para gerir dinheiro “imaginário”; → Desafiar a ter dois mealheiros distintos (um para gastar e outro para poupar); → Incentivar a comparação de preços no supermercado ou em compras online; → Dar uma semanada associada a objetivos de poupança; → Envolver a criança em decisões financeiras simples do dia a dia; → Explorar jogos como o Monopólio (indicado a partir dos oito anos) para ensinar a gerir o dinheiro de forma lúdica. |
Dos 11 aos 14 anos: desenvolver a autonomia financeira
À medida que entram na adolescência, os jovens começam a ter maior contacto com o dinheiro, mas também podem tornar-se mais exigentes – por exemplo, com a compra de artigos de marca ou tecnologia. Por isso, esta é uma fase fundamental para reforçar a importância da gestão financeira, da poupança e do consumo responsável.
Neste seguimento, foque-se em:
- Estabelecer uma mesada e ensinar a geri-la dentro de limites definidos;
- Criar um orçamento simples, mas realista;
- Ajudar a definir o que é ou não prioritário;
- Incentivar o consumo responsável;
- Ensinar a combater o desperdício.
Além disso, pode também introduzir e falar abertamente sobre erros financeiros comuns e incentivar a definição de objetivos de poupança mais ambiciosos e de médio prazo.
| Ideias de jogos e atividades práticas que pode aplicar dos 11 aos 14 anos: → Criar um mini orçamento mensal real, com percentagens para gastos, poupança e investimentos; → Abrir uma conta jovem e explicar como funcionam as contas bancárias; → Simular um “banco familiar” para depósitos, levantamentos e controlo de saldo; → Estimular o desafio “Poupa X em 30 dias” com um objetivo concreto; → Permitir a gestão independente da mesada. |
Dos 15 aos 17 anos: preparar para a vida adulta
De acordo com o relatório do 4.º Inquérito à Literacia Financeira da população portuguesa, os jovens entre os 16 a 24 anos são os que revelam menor preocupação com o planeamento e controlo do orçamento familiar.
Este dado não é surpreendente, tendo em conta que ainda não têm, em muitos casos, responsabilidades financeiras diretas. Como tal, e uma vez que estão cada vez mais autónomos – e até estão perto de ir para a faculdade – esta é uma boa altura para os preparar para a gestão da vida financeira.
Garanta que:
- Explica o funcionamento dos cartões de débito e crédito, bem como os riscos associados;
- Cria uma conta poupança com um objetivo claro (pode ser, por exemplo, tirar a carta de condução, comprar o primeiro carro, ir para a faculdade, etc.);
- Ajuda a prevenir burlas com cartões bancários, compras online, mensagens de phishing, etc.;
- Ensina as noções de endividamento e sobreendividamento;
- Explica como funcionam os créditos;
- Fala sobre investimentos e sobre as suas vantagens e riscos;
- Dá algumas noções sobre impostos e qual o impacto que têm na vida financeira.
Nestas idades, é importante que mantenha um acompanhamento e orientação contínua, mas sem controlar demasiado.
| Ideias de atividades práticas que pode aplicar dos 15 aos 17 anos: → Permitir a gestão autónoma de pequenas despesas do dia a dia; → Disponibilizar um cartão pré-pago com limite mensal definido; → Incentivar a participação em decisões financeiras familiares (por exemplo, onde abastecer para poupar combustível; qual o supermercado mais barato para fazer as compras do mês; etc.); → Simular um pequeno projeto de negócio com definição de custos e objetivos. |
Como incentivar o hábito de poupar no dia a dia?
O hábito de poupar constrói-se ao longo do tempo e deve ser incentivado em qualquer idade. Nas crianças mais pequenas, pode começar por regras simples, como não desperdiçar comida ou poupar água. Já nos jovens mais velhos, passa por ensinar a gerir a mesada ou o dinheiro ganho em pequenas atividades ou part-time.
Estas são algumas estratégias práticas que pode aplicar no dia a dia:
- Definir objetivos de poupança claros e motivadores (por exemplo, comprar um jogo para a consola ou fazer uma viagem);
- Incentivar escolhas conscientes, evitando compras por impulso;
- Promover a reparação e reutilização de objetos em vez de comprar novos (por exemplo, reutilizar mochilas e material escolar de anos anteriores que ainda estão em bom estado);
- Atribuir uma mesada com regras simples e consistentes;
- Incentivar a gestão do dinheiro recebido em datas especiais, garantindo sempre uma parte para poupança;
- Celebrar pequenas metas de poupança atingidas;
- Envolver as crianças e jovens nas compras do dia a dia e em decisões financeiras mais relevantes;
- Criar desafios simples de poupança para estimular o hábito;
- Falar abertamente sobre dinheiro, de forma natural e sem tabus;
- Ensinar pelo exemplo.
Como guardar e gerir a poupança das crianças? 3 pontos a ter em conta
A gestão das poupanças das crianças e dos jovens é importante, não só para dar o exemplo, mas também para garantir que o dinheiro pode ser multiplicado. Reforçar a poupança é essencial, mas há mais que pode fazer.
Mealheiro ou conta poupança?
Cada uma destas opções tem vantagens e desvantagens, que pode comparar na tabela abaixo. Uma solução é manter o dinheiro no mealheiro até que atinja uma certa quantia, depositando-o depois no banco e começando uma nova poupança no mealheiro.
| Vantagens | Desvantagens | |
| Mealheiro | → A criança vê o dinheiro que poupa → Pode retirar dinheiro sempre que quiser | → Não obtém rendimento com a poupança → Guardar dinheiro em casa não é tão seguro |
| Conta Poupança | → Obtém rendimento → O dinheiro está seguro pelo Fundo de Garantia de Depósitos | → O dinheiro não está visível → Pode ter despesas de manutenção da conta |
Quando abrir uma conta bancária infantil?
Muitos pais e avós optam por abrir uma conta bancária para as crianças assim que nascem, permitindo começar a poupar mais cedo. Desta forma, é provável que, quando o jovem atingir os 18 anos, tenha uma boa quantia acumulada.
Noutros casos, os pais preferem esperar até que os filhos sejam mais crescidos, para que possam envolvê-los no processo de abertura da conta.
Segundo o Banco de Portugal, não há uma idade mínima para abrir conta em nome de uma criança e é frequente que este tipo de contas não tenha comissão de manutenção.
| Fast Fact: Uma conta de depósito em nome de um menor pode ser aberta pelos seus representantes legais (geralmente os pais), mas só pode ser movimentada livremente pelo jovem quando este atingir a maioridade. |
Como acompanhar a evolução da poupança?
Poupar é importante, mas acompanhar a evolução da poupança também ajuda a manter a motivação e a criar hábitos financeiros mais consistentes. Ver o dinheiro crescer ao longo do tempo permite às crianças e jovens perceber melhor o impacto das suas escolhas e da regularidade da poupança.
Além dos tradicionais depósitos a prazo e contas poupança, existem outras soluções, como os Planos Poupança Educação (PPE), que podem ser utilizados para financiar despesas futuras relacionadas com os estudos.
Para ajudar a definir objetivos e acompanhar resultados, o portal Todos Contam – do Plano Nacional de Formação Financeira – disponibiliza um simulador de poupança que pode usar para calcular:
- O valor de uma poupança no final de um determinado período, depois dos reforços mensais ou anuais;
- Quanto é necessário poupar para atingir um objetivo específico;
- Quanto tempo pode demorar a alcançar uma determinada meta de poupança.
Quais os erros mais comuns dos pais ao ensinar sobre dinheiro?
Ensinar finanças às crianças e jovens nem sempre é fácil, até porque este é um tema que continua a não ser consensual. Além disso, e mesmo tendo as melhores intenções, os pais acabam muitas vezes por cometer alguns erros comuns. Por exemplo:
- Evitar falar sobre dinheiro, tratando o tema como um tabu;
- Ceder sempre que a criança pede alguma coisa, sem explicar limites;
- Não estabelecer regras ou objetivos relacionados com a gestão do dinheiro;
- Transmitir a ideia de que o dinheiro é ilimitado ou aparece “automaticamente”;
- Dar a entender que a família tem um nível financeiro que não corresponde à realidade;
- Usar o dinheiro como recompensa emocional;
- Resolver constantemente os erros financeiros da criança, sem lhe permitir aprender com as consequências;
- Não dar o exemplo através de hábitos de consumo e poupança responsáveis.
Mais do que grandes explicações teóricas, as crianças tendem a aprender através do comportamento que observam no dia a dia. Por isso, a consistência entre o que os pais dizem e aquilo que fazem é um dos fatores mais importantes no que toca a finanças para crianças.
Como ensinar pelo exemplo?
Para que as crianças ou jovens venham a ter uma relação saudável com o dinheiro, é importante que possam seguir um modelo. É verdade que toda a gente comete erros financeiros, mas há pequenos gestos do dia a dia que podem ajudar a dar um bom exemplo:
- Mostrar hábitos de poupança, como levar comida de casa para o trabalho ou colocar regularmente dinheiro de parte para comer fora;
- Fazer listas de compras antes de ir ao supermercado e evitar compras desnecessárias;
- Explicar decisões financeiras de forma simples e adequada à idade, como “vamos comprar um carro usado porque é mais económico”;
- Evitar compras por impulso e mostrar a importância de comparar preços;
- Definir prioridades e explicar porque algumas despesas são mais importantes do que outras;
- Criar objetivos familiares de poupança, como por exemplo “vamos poupar durante seis meses para as férias de verão” ou “vamos colocar este dinheiro no banco para usar quando fores para a faculdade”.
4 perguntas frequentes sobre finanças para crianças
Ensinar as crianças a poupar e a lidar com o dinheiro não é uma ciência exata e ninguém tem todas as respostas. De qualquer forma, há algumas dúvidas que são mais fáceis de esclarecer. Estes são alguns exemplos.
Qual a melhor idade para começar a falar de dinheiro com as crianças?
Não há uma idade ideal, mas é importante que a criança tenha já alguma maturidade para compreender conceitos básicos. Por isso, entre os três e cinco anos será uma boa idade para começar.
Qual o valor ideal a dar de semanada ou mesada?
Não existe um valor ideal. Tudo depende da idade da criança, da realidade financeira da família e dos objetivos de aprendizagem. O mais importante é ensinar responsabilidade, gestão do dinheiro e hábitos de poupança.
É boa ideia dar dinheiro às crianças em troca de tarefas domésticas?
As tarefas da casa devem, idealmente, ser vistas como responsabilidades familiares e não apenas como forma de ganhar dinheiro. No entanto, pode fazer sentido atribuir pequenas recompensas por tarefas extra ou objetivos específicos, desde que a criança perceba a diferença entre obrigação e recompensa.
O que dizer quando uma criança pergunta “Porque é que não posso ter isto?“
Os pais devem ser sinceros e explicar que existe um orçamento e que, dentro do dinheiro disponível, há coisas que são prioritárias. Pode aproveitar para propor: “vamos poupar juntos para comprarmos”.
| 5 recursos úteis para ensinar sobre finanças às crianças: → Museu do Dinheiro (Lisboa); → Museu do Papel Moeda da Fundação Cupertino de Miranda (Porto); → Cadernos de Educação Financeira, da Direção-Geral da Educação (pode fazer o download gratuito aqui); → Livro “Desperte o Génio Financeiro do Seu Filho”, de Cristina Judas; → Livro “O Dinheiro Não Cresce nas Árvores”, de Heath McKenzie. |