Fraude imobiliária: como identificar e evitar burlas?
A fraude imobiliária tem vindo a aumentar, sendo cada vez mais importante conhecer os riscos antes de comprar, vender ou arrendar casa. Saiba que cuidados deve ter para evitar cair numa burla imobiliária e proteger o seu património.
Quem está atento ao mercado imobiliário, sabe que é cada vez mais difícil encontrar casa para comprar ou arrendar em Portugal. A escassez de oferta, aliada à elevada procura e ao crescimento dos meios digitais para fazer negócio, tem contribuído para o aumento de esquemas de fraude imobiliária.
E os dados mais recentes não mentem. De acordo com a Polícia de Segurança Pública (PSP), nos últimos três anos foram registados 4.553 crimes de burla por falso arrendamento. O número tem vindo a descer, mas, ainda assim, só no primeiro trimestre de 2026 houve 325 denúncias.
A fraude imobiliária pode ocorrer em vários contextos e afetar diferentes perfis, nomeadamente:
- Quem procura casa para arrendar, incluindo estudantes e turistas à procura de alojamento temporário;
- Quem pretende comprar casa;
- Imigrantes à procura de alojamento;
- Investidores ou empresários à procura de imóveis ou terrenos para investir.
A forma como a fraude é cometida vai variando, mas o que todas têm em comum é que os burlões exploram a urgência e a necessidade das vítimas para extorquir dinheiro.
Neste artigo, explicamos como funciona a fraude imobiliária, quais os esquemas mais comuns, quais os sinais de alerta e como se pode proteger.
O que são e como funcionam as fraudes imobiliárias?
A fraude imobiliária é um esquema em que um indivíduo ou um grupo tenta vender, arrendar, reservar ou intermediar um imóvel de forma enganosa com o objetivo de obter dinheiro ou dados pessoais.
Atualmente, muitos destes esquemas estão associados à burla informática. Segundo a PSP, a digitalização tornou as fraudes mais sofisticadas, perigosas e difíceis de detetar. E entre os canais mais utilizados, destacam-se:
- Os portais imobiliários online;
- As redes sociais;
- E as aplicações de mensagens, como o WhatsApp.
Assim, além de utilizarem este tipo de canais mais informais, os burlões aproveitam-se da dificuldade no acesso à habitação, dos preços elevados e da grande burocracia para explorarem as vítimas. Como? Apresentando imóveis atrativos, muitas vezes com imagens e endereço real, a um preço muito abaixo do praticado no mercado, gerando uma sensação de oportunidade única.
Em alguns casos, chegam até a utilizar documentos reais ou dados roubados para aumentar a credibilidade. O resultado? Com medo de perderem a casa, os interessados agem de forma precipitada e pagam antecipadamente por imóveis que não existem ou já estão ocupados.
Depois de terem o dinheiro na conta, os burlões retiram o anúncio e desativam todos os contatos, de forma a que as vítimas não tenham possibilidade de os encontrar.
| Em suma, as fraudes imobiliárias seguem, regra geral, um padrão comum:→ Exploraram a urgência e a necessidade das vítimas para acelerar decisões; → Aproveitam a dificuldade de acesso à habitação, os preços elevados e a burocracia do setor; → Publicam anúncios de imóveis atrativos, muitas vezes com imagens reais e moradas verdadeiras, em canais informais; → Apresentam preços abaixo do mercado para criar sensação de oportunidade única; → Em alguns casos, utilizam documentos reais ou dados roubados para aumentar a credibilidade e confiança; → Levam as vítimas a pagar antecipadamente por imóveis inexistentes ou já ocupados; → Após receberem o dinheiro, removem os anúncios e cortam todo o contacto. |
Quais os esquemas mais comuns de fraude imobiliária?
Em Portugal, há vários tipos de fraudes com a habitação, umas mais comuns do que outras.
Anúncios falsos de imóveis
Este é um dos esquemas mais recorrentes. Os burlões publicam um anúncio de um imóvel inexistente, utilizando fotografias reais, muito abaixo do preço de mercado.
Depois, pedem o pagamento de uma caução ou sinal, alegando que existem várias pessoas interessadas, ou solicitam o envio de dados pessoais, como cartão de cidadão, NIF e comprovativo de rendimentos.
Por norma, esta burla é mais comum em arrendamentos, incluindo para férias, mas também pode acontecer na compra de casas.
Imóveis já vendidos ou reservados
Também há situações em que o burlão anuncia um imóvel real, mas que já foi vendido ou está reservado. Neste caso, faz-se passar por proprietário ou mediador e aceita sinais de várias pessoas interessadas que, por sua vez, ficam sem dinheiro e sem casa.
Sites falsos
Outras vezes, os burlões criam sites fictícios, a imitar plataformas reais. Roubam fotografias, logótipos, contactos e até informação de agentes imobiliários verdadeiros de forma a tornar a página o mais realista possível.
As vítimas acreditam estar a ver imóveis reais quando, na verdade, as casas não existem, não estão à venda ou, se o estão, não é ao preço anunciado ou por aquela via.
De seguida, os burlões pressionam os interessados a fazer um pagamento para reservar o imóvel ou garantir os serviços de mediação.
Usurpação de identidade e falsificação de documentos
Roubo de identidade é outra forma de burla cada vez mais comum. Neste esquema, mais frequentemente praticado por grupos organizados, os burlões usurpam a identidade do proprietário ou do agente imobiliário e falsificam documentos, incluindo escrituras, licenças e contratos de compra e venda.
Os interessados iniciam, então, o processo de compra, avançando muitas vezes com um pedido de crédito à habitação, e só depois percebem que o imóvel não existe ou pertence a outra pessoa.
Este esquema é mais comum com segundas habitações, como casas de férias, ou imóveis herdados, que estão mais tempo desocupados.
Recolha indevida de dados pessoais
Neste caso, os burlões pedem dados e documentos pessoais, como cópia do cartão de cidadão, declaração de IRS, comprovativo de morada e de IBAN e recibos de vencimento.
Depois, utilizam essa informação para cometer fraudes bancárias, como a abertura de contas ou até pedidos de créditos online.
Phishing para obtenção de dinheiro
Neste esquema, os burlões, que têm capacidades de informática avançadas, conseguem monitorizar a atividade de empresas de mediação e enviam e-mails falsos (phishing) a potenciais compradores, que já estão em processo de negociação, a solicitar um pagamento.
Falsos intermediários de crédito
Aqui, supostos consultores ou intermediários de crédito (que não têm autorização do Banco de Portugal para atuar) fazem promessas de um empréstimo fácil e com melhores condições. Para isso, exigem ao comprador o pagamento de uma taxa, supostamente para acelerar o processo.
| Sabia que pode, em menos de um minuto, verificar a autenticidade de um intermediário de crédito? Basta consultar o registo oficial do Banco de Portugal para confirmar se está devidamente autorizado e garantir que se trata de uma entidade legal e habilitada a exercer a atividade. |
A que sinais de alerta deve estar atento?
Se vai comprar ou arrendar casa, esteja atento a estes sinais:
- Preço do imóvel muito abaixo do valor de mercado;
- Erros, incoerências ou falta de detalhe nos anúncios;
- Falta de documentação legal relativa ao imóvel ou ao intermediário;
- Falta de morada física ou contactos passíveis de verificação dos agentes imobiliários ou intermediários de crédito;
- Intermediários de crédito sem registo no Banco de Portugal;
- Recusa do suposto agente em mostrar o imóvel presencialmente;
- Comunicação apenas por canais informais, como o WhatsApp ou redes sociais;
- Pressão para decidir ou fazer pagamentos rapidamente;
- Solicitação de documentos ou informações pessoais antes de qualquer formalização;
- Pedidos de pagamento de reserva, caução ou sinal sem haver um contrato formal;
- Contas bancárias estrangeiras ou em nome de outra pessoa que não o suposto intermediário.
Como evitar fraudes imobiliárias?
A prevenção é mesmo a melhor forma de evitar ser vítima de burlas imobiliárias. Para isso, siga estas boas práticas:
- Desconfie sempre de anúncios com preços muito abaixo do mercado quando comparados com imóveis semelhantes na mesma área geográfica;
- Utilize apenas plataformas credíveis. Por exemplo, pode verificar a autenticidade de um site pelo endereço, que deve começar com https:// ou apresentar o ícone do cadeado no início do URL;
- Confirme a existência do imóvel e se os pormenores da habitação correspondem à morada fornecida. Por exemplo, pode fazê-lo com uma pesquisa rápida no Google Maps. Além disso, é importante que peça informações extra, como fotos do interior ou cópias dos contratos de água e luz;
- Confirme a identidade do proprietário no registo predial;
- Verifique a licença AMI (Agente de Mediação Imobiliária) do mediador no Instituto dos Mercados Públicos, do Imobiliário e da Construção (IMPIC);
- Verifique o registo do intermediário de crédito no Banco de Portugal;
- Insista sempre em reuniões presenciais e peça para visitar o imóvel;
- Peça toda a documentação do imóvel, incluindo título de propriedade, licença de habitabilidade, caderneta predial, certidão permanente e certidão de dívida e não dívida;
- Leia cuidadosamente todos os documentos antes de assinar. Pode, inclusive, contratar os serviços de um advogado para analisar toda a documentação e contratos;
- Nunca envie informações ou documentos pessoais, nem faça pagamentos antes de visitar o imóvel ou de ter um contrato assinado;
- Confirme sempre se o nome associado ao IBAN coincide com o do proprietário ou empresa antes de fazer qualquer transferência;
- Utilize métodos de pagamento seguros, como depósitos fiduciários, que permitem proteger o dinheiro até que as condições do contrato sejam cumpridas;
- Nunca aceda a links enviados por e-mail para fazer negócio.
O que fazer em caso de burla imobiliária?
Se perceber que está perante uma tentativa de fraude imobiliária, ou se for mesmo vítima de burla, a primeira coisa que deve fazer é interromper de imediato a comunicação com o burlão.
De seguida, guarde tudo o que possa servir como prova (por exemplo, o anúncio, fotografias, mensagens e e-mails trocados) e, caso o anúncio esteja numa plataforma imobiliária, denuncie-o ao site.
Se tiver feito algum tipo de pagamento, contacte o seu banco o mais rapidamente possível e peça o bloqueio ou a anulação da transferência.
Por fim, apresente queixa às autoridades. Caso a burla envolva um falso intermediário de crédito, também pode denunciar o ocorrido ao Banco de Portugal.
Com estas nossas dicas, aumenta significativamente a probabilidade de se proteger contra fraudes imobiliárias e de tomar decisões mais seguras ao comprar, arrendar ou investir em imóveis. A atenção aos sinais de alerta, a verificação cuidadosa da documentação e o recurso a fontes oficiais podem fazer toda a diferença para evitar perdas financeiras e garantir que qualquer negócio imobiliário é feito com total segurança e confiança.