Burlas com IA: saiba como proteger o seu dinheiro de deepfakes
Índice de conteúdos:
- O que são e como funcionam as deepfakes?
- Porque é que os deepfakes representam um risco financeiro?
- Como proteger-se de deepfakes em fraudes financeiras?
- Como denunciar estas burlas?
A era digital trouxe o banco para a palma da nossa mão. Pagar compras ou serviços a qualquer hora e em qualquer lugar tornou-se uma realidade, mas o avanço de técnicas fraudulentas, como as deepfakes, mostra que precisamos de ficar atentos à segurança do nosso dinheiro.
À medida que a tecnologia facilita a nossa vida financeira, ela também abre novas oportunidades para cibercriminosos. Afinal, nenhuma tecnologia é exclusiva das “Forças do Bem” e, quanto maior o seu potencial, maior o risco de uso indevido.
E a verdade é que as burlas financeiras evoluíram. O tempo dos e-mails mal escritos com promessas de heranças de príncipes já lá vai. Hoje, impulsionadas pela Inteligência Artificial (IA), estas fraudes são mais sofisticadas e personalizadas. O resultado? Ver ou ouvir já não é sinónimo de acreditar.
O que são e como funcionam as deepfakes?
A grande arma destas fraudes chama-se deepfake. De forma simples, os deepfakes são conteúdos multimédia gerados ou manipulados por Inteligência Artificial para parecerem reais. A tecnologia aprende padrões de rosto, expressões e vozes e consegue criar réplicas praticamente idênticas.
Atualmente, existem várias estratégias diferentes, mas as três principais formas de deepfakes utilizadas em burlas são:
- Voz (clonagem de áudio): com apenas alguns segundos de gravação de áudio de uma pessoa – retirados, por exemplo, das redes sociais – a IA consegue clonar a voz e fazê-la dizer qualquer coisa, imitando o tom e a emoção originais. Ao acrescentar um cenário plausível e algum sentido de urgência ao que está a ser dito, torna-se mais fácil enganar quem está a ouvir, levando um familiar a enviar dinheiro, revelar uma palavra-passe ou fornecer o código do cartão de crédito. É tudo uma questão de fazer com que a vítima não duvide de que está a falar com alguém da sua confiança;
- Vídeo: consiste na manipulação de rostos em movimento, na troca de rostos em vídeos ou na criação de figuras humanas digitais hiper-realistas. Esta estratégia é cada vez mais utilizada, o que exige que qualquer vídeo ou fotografia seja vista e analisada com cautela;
- Imagem: consiste na criação de fotografias de pessoas ou situações que nunca existiram e até na manipulação de documentos de forma quase perfeita.
Porque é que os deepfakes representam um risco financeiro?
A resposta é simples: o sistema financeiro, as relações pessoais e as decisões do dia a dia baseiam-se na confiança. Se recebemos uma chamada com a voz do nosso filho a pedir dinheiro, ou vemos um vídeo do nosso patrão a autorizar uma transferência, o nosso instinto natural é não duvidar e agirmos rapidamente, sobretudo em cenários de urgência. E é precisamente desta confiança que os burlões se alimentam.
Assim, os criminosos aplicam estas estratégias em cenários específicos para maximizar os lucros. Por exemplo:
- Manipulação de identidade e “falso familiar”: a clássica burla da mensagem escrita “Olá mãe, perdi o telemóvel” evoluiu. Nos dias de hoje, a vítima pode receber uma chamada de voz – ou até uma videochamada de má qualidade – que soa exatamente como o familiar, relatando uma emergência e pedindo uma transferência imediata via MB WAY ou IBAN;
- Fraude do CEO: direcionada a empresas, esta burla envolve a clonagem da voz ou imagem em vídeo de diretores executivos. De seguida, os burlões entram em contacto com o departamento financeiro e ordenam transferências avultadas para “fornecedores urgentes” ou “aquisições confidenciais”;
- Falsas oportunidades de investimento com celebridades: vídeos falsos de figuras públicas (como apresentadores de televisão, empresários ou atletas) são criados para promover esquemas de criptomoedas ou outros investimentos com lucros extraordinários;
- Falsificação de documentos: são criados cartões de cidadão, passaportes ou comprovativos de morada falsos para contornar sistemas de verificação bancária (KYC – Know Your Customer) e abrir contas em nome de terceiros para lavagem de dinheiro.
Como proteger-se de deepfakes em fraudes financeiras?
Embora os deepfakes sejam cada vez mais sofisticados, ainda deixam pistas. Proteger o seu dinheiro exige agora atenção redobrada e novos hábitos de segurança. Estes são os principais sinais de alerta a que deve estar atento:
- Urgência extrema: desconfie de pressões para tomar decisões rápidas e emocionais, sem tempo para refletir ou fazer perguntas;
- Falhas no áudio e vídeo: preste atenção a vozes metálicas ou robotizadas, pausas pouco naturais a meio das frases, falta de sincronização entre os lábios e as palavras ou padrões estranhos de piscar de olhos. Observe, também, o ritmo com que a voz responde a algo. Apesar de rápida, a IA raramente consegue acompanhar o fluxo natural de uma conversa real;
- Pedidos invulgares de confidencialidade: qualquer pedido de dinheiro acompanhado de “não conte a ninguém” deve ser encarado com suspeita.
Além disso, é fundamental partilhar esta informação com familiares, especialmente pessoas mais velhas que possam ter, em teoria, um menor conhecimento destas novas formas de fraude.
Mas saber identificar os riscos não é suficiente. Perante uma tentativa de burla financeira, é essencial agir com calma e método.
Assim, se receber uma chamada de um familiar a pedir dinheiro a partir de um número desconhecido, a primeira coisa a fazer é desligar e ligar para o contacto habitual que tem guardado na sua lista telefónica para confirmar o pedido.
E mesmo que a justificação dessa pessoa seja que está a ligar do telefone de um amigo, desligue e volte a ligar para esse mesmo número. Isto porque os algoritmos que suportam muitos destes esquemas seguem um guião e raramente conseguem manter a naturalidade ao receber uma nova chamada para continuar a conversa anterior.
Outra medida eficaz é criar uma palavra-passe de segurança familiar. Nesse seguimento, se alguém da sua família ligar de um número desconhecido para pedir dinheiro numa emergência, peça essa palavra-passe. Mas muito importante: escolha uma palavra que não se consiga identificar através das suas redes sociais.
Por outro lado, desconfie do identificador de chamadas, uma vez que os criminosos conseguem falsificar o número que aparece no ecrã do telemóvel (uma técnica chamada spoofing). Como tal, o facto de surgir “Banco X” não significa que seja realmente uma chamada de um banco.
Por fim, na maioria dos casos, as burlas por SMS procuram levar o utilizador a clicar num link. Se receber mensagens com pedidos de pagamento, alertas de atividade suspeita na sua conta bancária ou encomendas retidas com um link associado, é muito provável que se trate de uma fraude. Redobre a sua atenção e nunca clique em links recebidos em contextos duvidosos.
Como denunciar estas burlas?
Se suspeitar que foi alvo de uma burla ou de uma tentativa de fraude com deepfakes, deve agir rapidamente. Comece por:
- Guardar todas as provas possíveis: não apague vídeos, gravações, números de chamadas, mensagens ou comprovativos de transferência. Tire capturas de ecrã de tudo o que conseguir, pois estes elementos são fundamentais para iniciar uma investigação;
- Contactar o banco imediatamente: este passo é crucial para tentar congelar contas e reverter transferências antes que o dinheiro desapareça;
- Apresentar queixa na Polícia Judiciária: sendo um cibercrime e fraude financeira, a PJ – através da Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e à Criminalidade Tecnológica – é a entidade mais preparada para investigar. Pode apresentar uma queixa numa esquadra da PSP ou GNR, que encaminhará o processo.
E mesmo que consiga escapar a uma tentativa de burla, reporte o ocorrido. Quanto mais queixas e provas existirem, maior será a capacidade das autoridades para investigar e prevenir novos casos, protegendo outras pessoas que podem não ter a mesma sorte de conseguir escapar.