Posso ficar rico se poupar muito?
Em resposta a uma afirmação que fiz sobre a importância de poupar e de gerirmos bem o nosso dinheiro, um leitor respondeu-me com a seguinte frase: “Conheço um sujeito que é a pessoa mais poupada que já conheci em toda a minha vida e que nunca deixou de ser pobre”.
Este raciocínio é muito comum. Não sei se a minha interpretação está correta, mas o que depreendo é que muitos pensam que não vale a pena poupar ou ter uma vida financeira regrada porque isso não vai mudar nada. Em vez disso, acreditam que mais vale “viver a vida” porque não sabem se amanhã ainda cá estarão.
Infelizmente, este é um pensamento generalizado sobre a relação entre a poupança e a riqueza, mas que na minha opinião é errado. Praticamente todos nós fomos educados com base na expressão “no poupar é que está o ganho”. No entanto, o que tenho percebido ao longo dos anos é que esta frase está errada.
Não conheço ninguém que tenha conseguido ficar rico por poupar. Quando muito, teve uma vida sem dívidas (o que já não é mau). Atrevo-me a dizer que o provérbio popular deveria ser “no investir é que está o ganho”, isto porque o simples ato de poupar apenas nos permite manter (e mal) o que temos.
Assim, a mensagem que gostava de vos transmitir é que embora a poupança seja um elemento fundamental na construção de uma base financeira sólida, esta por si só não é suficiente para garantir prosperidade e construir um património relevante.
Poupança vs. riqueza
A premissa de que poupar é o fator-chave para ficar rico é uma visão simplista. A poupança, ainda que fundamental, é apenas o primeiro passo.
Costumo dizer que dinheiro parado é dinheiro perdido. Isto porque juntar dinheiro sem investir é o caminho para a estagnação financeira.
E porquê? É simples: a inflação reduz o poder de compra ao longo do tempo. Como tal, é essencial aplicar as suas poupanças em ativos que gerem retorno acima da inflação, como é o caso dos Plano Poupança Reforma (PPR), ETF, ações, obrigações, fundos de investimento ou imobiliário. Se não investir, dificilmente conseguirá ficar rico.
Outro ponto que quero reforçar é que para acumular riqueza, é indispensável aumentar os seus rendimentos. Seja através de um emprego com melhor remuneração, de um negócio próprio ou de rendas passivas, quem deseja criar riqueza tem de procurar formas de aumentar as suas fontes de receita. E o ideal é diversificá-las.
Infelizmente, em Portugal somos ensinados que um professor só pode ser professor, um engenheiro só pode ser engenheiro, um médico só pode ser médico e que uma florista só pode ser uma florista. Mas porque é que qualquer um destes não pode ser sócio de uma pastelaria ou de uma loja que vende produtos para animais de estimação? Ou ser agente imobiliário nos fins de semana? Ou ter um negócio online que funciona sozinho?
O segredo da riqueza não está na poupança dos eremitas que não saem de casa, não vão jantar fora, nem tão pouco bebem um café para poupar alguns euros e acumular mais algum dinheiro. Se quer ficar rico, não vá por aí.
O segredo é aumentar todos os dias a nossa taxa de poupança e rendimentos, com o objetivo de investir esse mesmo dinheiro e, dentro de algum tempo, os rendimentos passivos serem suficientes para nos sustentar sem termos de fazer grandes esforços. Ou seja, sendo apenas necessário resgatar todos os meses parte dos nossos lucros.
Saber gerir as despesas para ficar rico
Obviamente que a poupança está diretamente relacionada com a gestão de despesas. Uma pessoa pode até ser poupada, mas se tiver despesas desnecessárias ou mal planeadas, mais dificuldade terá em acumular riqueza.
Com isto, quero dizer que se não controlar as despesas fixas, sem nunca as renegociar, estará a fazer uma poupança inútil. Isto porque uma grande parte das suas receitas irão para bancos, seguradoras, comercializadoras de eletricidade ou outras entidades e não para a sua poupança. Neste caso, poupar será como tentar encher uma banheira sem ter posto a tampa no ralo.
A afirmação inicial deste artigo dá também a entender que ser poupado deveria ser suficiente para superar a pobreza. Mas é importante percebermos que há situações que não dominamos.
Se uma pessoa ganha pouco, a capacidade de poupar é limitada. Por mais disciplinada que seja, o montante poupado pode ser insuficiente para criar um património significativo. Daí ser essencial criar oportunidades de trabalho mais rentáveis.
No entanto, nem sempre isto é possível. Seja porque existe uma educação financeira limitada, barreiras socioeconómicas, problemas de saúde ou simplesmente se vive numa região onde as oportunidades não abundam, mais difícil será sair de um ciclo de pobreza mesmo sendo poupado.
Comece hoje a sua liberdade financeira
Em jeito de resumo, poupar é importante, mas não é sinónimo de gerir o dinheiro de forma eficiente. Uma gestão financeira eficaz vai muito além da simples acumulação de dinheiro.
Foque-se sim em juntar dinheiro, mas utilize-o para criar ainda mais dinheiro. Isto envolve decidir onde e como investir, além de ter planos claros para utilização da sua poupança.
Uma pessoa poupada, mas sem um plano e objetivos claros, pode acabar por desperdiçar todos os seus recursos. Por isso, poupe mas garanta também que investe nestas ferramentas financeiras:
- Aumentar os seus rendimentos: procure formas de gerar mais recursos;
- Controlar as despesas: evite gastos desnecessários e compras por impulso;
- Aprender a investir: faça o dinheiro trabalhar por si;
- Gerir os riscos: proteja-se contra imprevistos financeiros através, por exemplo, da construção de um fundo de emergência.
Ficar rico é um processo longo e que exige literacia financeira, disciplina e muita paciência. A poupança é apenas o ponto de partida. Lembre-se: nunca ninguém ficou rico por poupar.