Trabalho e carreira

Dia da Mulher: conselhos de empreendedoras em Portugal

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Ser uma empreendedora ainda implica mais trabalho para ser levada a sério? Algumas empresárias em Portugal confirmam. Hoje, as dores dos que começam sozinhos a sua ideia de negócio — muitas vezes, o seu sonho — são largamente divulgadas e debatidas, mas continua a haver algumas frustrações extra para as mulheres que atravessam o mesmo caminho.

A mensagem é, no entanto, de esperança. O Contas Connosco falou com quatro empresárias que iniciaram projetos de raiz, com o seu trabalho e ideias originais e todas confirmam: é importante ter o apoio e exemplo de outras mulheres para aliviar o peso do processo.

Larissa Abbud

“Quanto mais líderes mulheres, mais temos em quem nos espelhar e quebrar barreiras que ainda são enormes.”  

Viajou do Brasil para Lisboa quando as opções de restaurantes vegan ainda eram poucas na capital portuguesa. A experiência foi rica e acabou por ser o objeto de estudo da sua tese de mestrado em ciências gastronómicas, mas o empreendedorismo de Larissa, não ficou (nem começou) por aí.

Aos 24 anos já tinha aberto a sua primeira empresa de catering, a Festa na Cozinha, e, em 2014, criou um evento de arte e gastronomia que viajou pela cidade do Rio de Janeiro. Depois de chegar a Portugal e abrir o seu restaurante vegan, o Quinta de Stº Amaro, abriu uma empresa de catering e ainda criou um podcast onde entrevista mulheres do mundo da gastronomia — o Cozinha de Segunda. Para Larissa, é muito importante compreender a diferença entre uma ideia e um negócio quando se está numa jornada empreendedora.

Que característica é essencial no início da construção de uma empresa?

Antes de mais nada: persistência. As coisas não acontecem de uma hora para a outra, ouvimos muitos nãos até chegarmos ao primeiro sim e o processo de empreender não é nada linear, pelo contrário, é cheio de altos e baixos emocionais e financeiros. Dito isso, o segundo passo é ter metas bem definidas, pois você precisa saber onde quer chegar com o seu projeto e nesse sentido é preciso ser realista e entender que toda construção demanda tempo. É preciso ter um bom planeamento, pois só assim vai conseguir ter fôlego para seguir com o projeto. Acho que é muito importante, desde o início, entender a diferença entre uma ideia e um projeto, pois para criar uma empresa não basta só ter uma ideia, é preciso colocá-la em prática. 

Como é que o apoio de outras mulheres pode levar uma empreendedora mais longe?

Quando falamos em empreendedorismo feminino estamos a falar sobretudo de igualdade de género, o que permite transformar as empresas e a realidade das pessoas, além de, claro, colaborar para a construção de uma sociedade mais justa e um mercado muito mais diverso, inclusivo e inovador. Apesar de haver diversos dados concretos que comprovem as vantagens, a eficácia e a competência de lideranças femininas, o mercado empresarial sempre foi dominado por representantes do género masculino e muitas vezes a presença de mulheres nesse círculo ainda é vista com alguma desconfiança, como se fossemos incapazes de atuar de igual para igual. Muitas vezes não temos credibilidade, o que torna difícil a criação de um networking sólido e é aí que entra o apoio de outras mulheres que também estão na mesma posição. Mulheres indicando o negócio de outras mulheres, mulheres contratando outras mulheres permite gerar lideranças femininas, gerando empoderamento, capacitação, ascensão financeira.

Que obstáculos são particularmente desafiantes para as mulheres empreendedoras?

Acho que existem duas dificuldades, uma delas é externa: infelizmente nós mulheres temos que provar o tempo todo que somos capazes, competentes, qualificadas para exercer a nossa profissão, seja ela qual for. É muito difícil sermos reconhecidas financeiramente, conseguirmos apoio para nossos projetos e até mesmo sermos olhadas como pares em um círculo dominado maioritariamente por homens.

O outro obstáculo é interno, pois nós mesmas estamos o tempo todo nos sabotando. Pelo menos até a minha geração e falando de forma massiva, não fomos criadas para sermos líderes, acreditarmos na nossa capacidade, em sonhos ambiciosos e na nossa competência e, por isso, existem tantas mulheres com a síndrome do impostor, com medo de levar a frente suas ideias, sonhos e desejos e o pior de tudo é que grande parte das vezes essas mulheres têm capacidade e competência para tal.

Joana Duarte

“Em vez de ‘roubar’ inspiração, quero trabalhar com comunidades artesãs e desenvolver um porduto autentico, the lhes permita viver do seu ofício”.

O projeto de Joana Duarte teve o pontapé de saída ainda na licenciatura de design, quando imaginou uma marca que fazia roupas de autor a partir dos tecidos tradicionais e de enxoval das famílias indianas e portuguesas, como rendas ou colchas. Nasceu aí a Béhen, que significa “irmã” em hindi.

A marca tem uma consciência de valorização das histórias e heranças que os tecidos carregam e está comprometida com a emergência climática que o mundo atravessa. Por um lado, evita-se o desperdício de tecidos que ficam muitas vezes esquecidos nos armários, por outro, não se incentiva a produção de novos tecidos, muito poluente de solos, águas e da atmosfera. As ideias e os designs da Béhen já estiveram em palco com Ana Moura e outros artistas internacionais e, neste processo, Joana Duarte garante que partilhar as suas dores de crescimento com outras mulheres é essencial.

Que característica é essencial no início da construção de uma empresa?

Mais do que uma característica é ter uma paixão imensa pela missão e valores que levaram à criação dessa empresa.

Como é que o apoio de outras mulheres pode levar uma empreendedora mais longe?

Confesso que com o passar do tempo cada vez mais me apercebo que as dores de crescimento são as mesmas, mesmo em projetos que aparentam ser tão opostos.

Ter um grupo de apoio ou outras mulheres com quem possamos partilhar estas experiências e aprendizagens é fundamental e são sem dúvida determinantes para o avanço do projeto. Muitos concursos de aceleração de projetos criam exatamente estes grupos de apoio.

Que obstáculos são particularmente desafiantes para as mulheres empreendedoras?

Inevitavelmente, em qualquer área profissional, existe uma desacreditação em relação ao potencial da mulher enquanto empreendedora. Uma mulher, em situações como delegar trabalho em equipas maioritariamente compostas por homens, ou pedir financiamento, normalmente tem de adotar uma postura, uma linguagem e até um certo vestuário de forma a que — e cito a triste expressão — “seja levada a sério”.

Telma Santos e Diana Reis

“Quando existe representatividade, o acesso a formas de fazer, de gerir e de empreender torna-se realidade.”

Abriram um restaurante que é um manifesto: o d’As Beatas, o nome do espaço em Lisboa, é um lugar feminista. Telma faz o serviço de sala e Diana é a chef de cozinha. As duas mantém a missão de tornar este um lugar seguro onde clientes e colaboradores podem sentir-se representados e expressar as duas diferentes formas de ser mulher.

Desde a abertura do restaurante, no início de 2020, tentam aliar a arte à cozinha de autor, dois campos onde o homem ainda está nos lugares de liderança, afirmam. Para construir uma empresa assim, feita de ideais, é preciso um plano de negócio, mas também muita gestão emocional. É disso que nos falam.

Que característica é essencial no início da construção de uma empresa?

Destacamos duas características, uma no sentido mais prático e outra no sentido mais da gestão emocional. Por um lado, é mesmo importante conseguir definir o produto ou serviço a prestar, o público-alvo, e conseguir ter alguma agilidade a pensar nas relações entre os preços das matérias primas e os preços de venda, tendo em conta a localização e as várias despesas associadas. É muito mais comum do que inicialmente pensámos chegar ao final do mês e perceber que temos que optar entre pagar ordenados ou pagar as despesas correntes. Isto torna a empresa insustentável.

Por outro lado, é muito importante cuidar e pensar na relação que estabelecemos entre o que gostaríamos de fazer e o que a realidade concreta nos permite. Esta realidade pode ser bastante inesperada e desafiante, como foi esta pandemia. No nosso caso, impactou a empresa quase desde o início, é uma maratona infindável, é preciso coragem e resistência diária.

Como é que o apoio de outras mulheres pode levar uma empreendedora mais longe?

Em especial na restauração, a representatividade não é a realidade e sabemos ser relativamente recente a existência e diversidade de mulheres chefs, gestoras e/ou proprietárias. Tendo em conta que a restauração, principalmente a “cozinha de autor”, é um universo ainda bastante dominado por homens (brancos, de classe média alta, heterossexuais e cisgénero), e que se encontra ainda numa fase inicial de desconstrução de algumas práticas de cariz hierárquico, de herança militar, muitas mulheres hoje optam, quando têm oportunidade para o fazer, por ter um restaurante seu, onde possam construir ambientes mais confortáveis. Parece-nos importante procurar essas mulheres, pedir opinião, saber como podemos, em conjunto, discutir estes ambientes, as formas de fazer e de continuar a lutar por visibilidade e reconhecimento.

Que obstáculos são particularmente desafiantes para as mulheres empreendedoras?

Existem vários, desde os diários na relação com os fornecedores, maioritariamente homens, com quem não é tão imediato estabelecer uma relação de parceria mais descontraída, na relação com os técnicos, em que existe a constante necessidade de reforçar autoridade, pois é muito fácil a conversa cair num conjunto de conselhos para “as meninas” aprenderem como deviam fazer (seja o que for), e também na relação com os trabalhadores, habituados a trabalhar em ambientes maioritariamente masculinos. Gerir uma empresa enquanto mulher é estar num estado de alerta quase contínuo sobre a forma como nos relacionamos com os todas as pessoas, tentando encontrar um balanço entre a forma como gostaríamos de o fazer e a constante imposição da nossa presença que exige por vezes posicionamentos mais rígidos.

Num sistema patriarcal, crescemos a aprender quais as práticas e quais as possibilidades que existem para nós enquanto mulheres, sendo uma delas a de sermos cuidadoras acima de tudo. Desafiar esta estrutura e decidir ser construtora ao invés de cuidadora, é um desafio gigante. Pedimos que nos escutem, temos menos medo de falar sobre o que atravessa as nossas existências, e começamos cada vez mais a exigir lugares de destaque e de gestão sem pedir desculpas por isso, o que é um sinal positivo de um futuro mais diverso e em que nós, nas nossas múltiplas mulheridades, possamos respirar fundo e realmente empreender.