Porque está o gasóleo mais caro do que a gasolina? Explicamos tudo
O gasóleo mais caro do que a gasolina é uma realidade que contrasta com o que aconteceu durante muitos anos. A diferença resulta de vários fatores, desde a oferta e a procura até às cotações internacionais dos produtos refinados e ao contexto geopolítico.
Durante muito tempo, os carros a gasóleo foram associados a menores gastos com combustível. Atualmente, essa vantagem já não é tão evidente. Perceba por que é que o gasóleo está mais caro do que a gasolina, o que influencia o preço de cada combustível e se, na prática, um carro a diesel continua a compensar.
| O que dizem os números sobre a utilização do gasóleo na Europa? De acordo com o Report – Vehicles on European Roads 2025, da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA), em 2023, 39,5% dos veículos que circulavam nas estradas da União Europeia (UE) eram movidos a gasóleo.[Apesar do peso que o gasóleo ainda tem no mercado automóvel europeu, os dados das novas matrículas mostram uma tendência em queda. No final de maio de 2026, os veículos a gasóleo representavam apenas 7,6% dos novos automóveis registados na UE, abaixo dos 9,5% registados no mesmo período de 2025. |
Porque está o gasóleo mais caro do que a gasolina?
O gasóleo está mais caro do que a gasolina, sobretudo porque o mercado europeu enfrenta uma maior pressão sobre a oferta de diesel, num contexto de perturbações geopolíticas, dificuldades no transporte e refinação e subida das cotações internacionais dos produtos refinados.
Embora seja comum associar o preço dos combustíveis ao valor do petróleo, a formação do preço é mais complexa. O gasóleo e a gasolina são produtos diferentes, com mercados, custos de refinação e níveis de procura próprios. Por isso, o preço de um não acompanha necessariamente o outro.
Esta não é, aliás, a primeira vez que o gasóleo ultrapassa a gasolina. Em agosto de 2022, verificou-se uma inversão nos preços dos combustíveis, com o gasóleo, historicamente mais barato, a ultrapassar o preço da gasolina.
Em 2026, esta diferença voltou a ganhar expressão e, num contexto em que se fala de preços recorde, a gasolina voltou a estar mais barata do que o gasóleo. A diferença entre os dois preços tem vindo, aliás, a aumentar. Mas quais são, concretamente, os fatores que explicam esta situação? Explicamos-lhe tudo de seguida.
A instabilidade no Médio Oriente
A situação no Médio Oriente, nomeadamente as perturbações relacionadas com o Estreito de Ormuz, tem dificultado o transporte e reduzido a disponibilidade de alguns produtos petrolíferos.
Quando a oferta disponível diminui e a procura se mantém elevada, aumenta a pressão sobre os preços. Com menos petróleo em bruto (crude) disponível para refinar e uma procura que se mantém elevada, cria-se um desequilíbrio entre a oferta e a procura que ajuda a explicar a subida de preços.
| O que dizem os números? Os dados da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) ajudam a perceber a evolução do preço dos combustíveis desde o início do conflito no Irão. A 28 de fevereiro de 2026, data de início do conflito, o preço de referência era: → 1,929 euros para a gasolina simples 95; → 1,956 euros para o gasóleo. A 20 de setembro, altura em que os preços dos combustíveis terão atingido máximos históricos, os valores eram: → 2,066 euros para a gasolina simples 95; → 2,154 euros para o gasóleo. |
Os dados da DGEG mostram, assim, que a diferença de preço entre o gasóleo e a gasolina já existia antes do início do conflito. Ou seja, a situação no Médio Oriente ajuda a explicar a subida dos preços, mas não explica, por si só, porque está o gasóleo mais caro do que a gasolina. Para perceber esta diferença, é necessário considerar outros fatores.
A importância das cotações internacionais
A instabilidade no Médio Oriente não afeta apenas a produção e a circulação de petróleo em bruto. Tem também impacto na refinação, na logística e no transporte de produtos refinados, como o gasóleo. Como muitas das refinarias que abastecem a Europa se encontram nesta região, tornou-se mais difícil fazer chegar estes produtos ao mercado europeu, incluindo a Portugal.
Recorde-se que, desde a invasão da Ucrânia, a Europa deixou de contar com o abastecimento direto de produtos petrolíferos provenientes da Rússia. Como a Europa não é autossuficiente e depende de importações para complementar a sua capacidade de refinação e abastecer o mercado, as alterações nos fluxos internacionais têm um impacto significativo na disponibilidade e no preço dos combustíveis.
A este cenário junta-se o aumento dos custos de transporte e dos seguros, que acaba por se refletir nas cotações tanto do gasóleo como da gasolina.
É comum associar o preço dos combustíveis à cotação do petróleo. Por isso, pode parecer difícil compreender porque aumentam os preços da gasolina e do gasóleo quando o valor do barril de petróleo (Brent) desce. No entanto, o preço dos combustíveis depende também das cotações internacionais dos produtos já refinados. E, neste caso, a cotação do gasóleo tem subido mais.
Além disso, apesar da crescente procura por veículos mais sustentáveis e do peso cada vez maior dos elétricos e híbridos, o gasóleo continua a ser utilizado em setores essenciais, como os transportes, a agricultura e a indústria. A procura por este combustível não depende, por isso, apenas dos automóveis ligeiros. Assim, quando a procura se mantém elevada e as cotações em alta, a pressão sobre o preço do gasóleo aumenta.
Em resumo, a subida do preço do gasóleo em 2026 resulta de uma combinação de fatores, entre os quais o desequilíbrio entre a oferta e a procura, as dificuldades na produção, refinação e transporte e a subida das cotações internacionais do gasóleo. É esta combinação que ajuda a explicar porque é que o gasóleo pode ficar mais caro do que a gasolina, mesmo quando a cotação do petróleo desce.
Gasóleo ou gasolina: qual pode compensar mais?
A resposta depende do perfil de cada condutor e da utilização que faz do automóvel. Embora, atualmente, a gasolina possa ser mais barata no momento do abastecimento, isso não significa que seja necessariamente a opção mais económica. O consumo por 100 quilómetros também conta e, nesse aspeto, os veículos a gasóleo tendem a apresentar consumos inferiores aos equivalentes a gasolina, permitindo percorrer mais quilómetros com a mesma quantidade de combustível.
Por outro lado, quem percorre poucos quilómetros ou utiliza sobretudo o automóvel em cidade pode não conseguir tirar o mesmo partido dessa eficiência. Nestes casos, importa considerar também o preço de compra do veículo, os custos de manutenção, os impostos – como o IUC, que tende a ser mais elevado para veículos a diesel – e a utilização prevista.
De forma geral, a comparação entre gasóleo e gasolina pode ser resumida assim:
| Gasóleo pode fazer mais sentido se: → Faz muitos quilómetros; → Faz viagens longas com frequência; → Circula maioritariamente em estrada; → Valoriza um menor consumo por quilómetro. | Gasolina pode fazer mais sentido se: → Usa pouco o carro; → Faz sobretudo viagens curtas; → Circula maioritariamente em cidade; → Procura um veículo com preço de aquisição ou manutenção potencialmente mais baixos. |
Na escolha entre gasóleo e gasolina, importa ainda considerar a questão ambiental e a evolução das regras aplicáveis aos veículos a combustão. Embora as regras europeias atualmente em vigor estabeleçam uma meta de 0 g de CO₂/km para os novos automóveis e carrinhas a partir de 2035, a Comissão Europeia apresentou entretanto uma proposta de revisão que prevê maior flexibilidade e poderá permitir que algumas tecnologias de combustão continuem a ter um papel no mercado.
Como poupar combustível no dia a dia?
Com a subida dos preços do gasóleo e da gasolina, poupar nos combustíveis torna-se ainda mais importante. E há formas de reduzir os gastos não só no momento de abastecer, mas também através de pequenos cuidados na condução e manutenção do automóvel.
Eis algumas medidas que podem ajudar:
- Compare os preços entre postos de combustível, recorrendo, por exemplo, à plataforma da DGEG;
- Abasteça fora das horas de maior calor;
- Aproveite descontos e cartões de fidelização;
- Prepare viagens longas, verificando antecipadamente a existência de obras, cortes de estrada ou trânsito intenso no percurso;
- Adote uma condução defensiva, evitando acelerações e travagens bruscas;
- Mantenha os pneus com a pressão recomendada pelo fabricante;
- Cumpra as manutenções e inspeções periódicas;
- Evite transportar carga desnecessária;
- Utilize o ar condicionado de forma moderada;
- Evite circular com as janelas abertas, sobretudo a velocidades elevadas;
- Evite deixar o motor ligado quando o veículo está parado;
- Sempre que possível, opte pela partilha de boleias ou pelos transportes públicos.

