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Fake news na informação financeira: como identificar e evitar burlas?

8 min
Luis Pinto
Luis Pinto

Índice de conteúdos:

  1. O que são fake news financeiras?
  2. Quais são os formatos de fake news na informação financeira mais comuns?
  3. Como identificar os sinais de alerta de uma fake news na informação financeira?
  4. Como confirmar se uma informação financeira é verdadeira?
  5. O que fazer se for vítima de uma burla financeira?
  6. Que hábitos ajudam a prevenir burlas financeiras?

Hoje em dia, basta um telemóvel para encontrar notícias sobre juros, conselhos de poupança e promessas de investimento. Muita desta informação é útil, mas também circulam conteúdos falsos ou manipulados para nos levar a tomar decisões prejudiciais: como transferir dinheiro para uma conta desconhecida, contratar um crédito falso ou partilhar dados bancários num site que imita o do nosso banco.

A boa notícia é que quase todas estas burlas seguem padrões semelhantes. 

Neste artigo, explico o que são fake news na informação financeira, porque é que a Inteligência Artificial (IA) as tornou mais convincentes, que sinais devem acender a luz vermelha e como confirmar uma informação antes de agir, sobretudo num contexto em que estas burlas tendem a tornar-se cada vez mais realistas. Descubra tudo. 

O que são fake news financeiras?

As fake news financeiras são conteúdos sobre dinheiro apresentados como informação verdadeira, mas que foram inventados ou distorcidos para influenciar o nosso comportamento. Podem surgir sob a forma de notícias, publicações nas redes sociais, anúncios, vídeos, SMS ou e-mails que parecem ser enviados por instituições credíveis. 

Mas nem tudo o que está errado é uma fake news. Há erros honestos, que podem ser corrigidos, e exageros comerciais, em que a informação é verdadeira, mas apresentada de forma enganadora. O foco aqui é outro: conteúdos criados por alguém que sabe que são falsos e que têm um objetivo claro, quase sempre um destes três: levar-nos a transferir dinheiro, a partilhar dados pessoais ou bancários, ou a comprar e vender no momento que mais convém a quem está do outro lado.

E nada disto é tecnicamente complexo. Para nos enganarem, os burlões não precisam de piratear telemóveis. Basta que acreditemos na informação e ajamos depressa. Afinal, muitas burlas acontecem através da confiança, e não necessariamente de um ataque informático.

Quais são os formatos de fake news na informação financeira mais comuns?

As fake news financeiras seguem padrões que se repetem com poucas variações. Conhecer os formatos mais comuns ajuda a reconhecê-las rapidamente:

FormatoComo costuma aparecerSinais de alerta
Notícia falsa com figura públicaPágina que imita um jornal fidedigno e apresenta um empresário ou figura pública a “revelar” uma plataforma de investimento.A pessoa nunca falou do assunto noutros canais e o endereço do site, embora parecido, não é o do jornal.
Investimento com ganhos garantidosAnúncio nas redes sociais a prometer lucros diários em criptomoedas, na bolsa ou através de “robôs” automáticos.Nenhum investimento legítimo garante lucros.
Falso prémio ou concursoMensagem a anunciar que ganhou um sorteio em que nunca participou.Geralmente, pedem o pagamento de portes ou os dados do cartão bancário para receber o prémio.
Crédito fácil fraudulentoEmpréstimo sem consulta ao Banco de Portugal, aprovado por WhatsApp em poucos minutos.Regra geral, exigem o pagamento antecipado de uma comissão, de um seguro ou de uma taxa para “libertar” o dinheiro.
Mensagem do “banco”SMS ou e-mail sobre uma compra suspeita ou uma conta bloqueada, com um link para confirmar dados. Em alguns casos, a mensagem chega mesmo do número habitual da instituição bancária.Os bancos nunca pedem credenciais, códigos ou confirmações de dados através de links enviados por SMS ou e-mail.
Grupos de dicas em WhatsApp ou TelegramUm “analista” partilha recomendações gratuitas e mostra os lucros de outros membros.O burlão incentiva todas as pessoas do grupo a comprar o mesmo ativo, sempre pouco conhecido, criando uma falsa sensação de oportunidade.
Falso emprego ou tarefas pagasOferta de trabalho bem remunerado a partir de casa, que envolve receber e reenviar transferências.Pode estar a ser recrutado para movimentar dinheiro de origem criminosa, tornando-se um intermediário numa atividade ilegal.
Recuperação de dinheiro perdidoAlguém que contacta vítimas de burlas anteriores e promete recuperar o dinheiro perdido.Em todos os casos, exige um pagamento antecipado pelo serviço. A vítima pode estar a ser alvo de uma segunda burla, por parte da mesma rede. 

Repare no padrão que se repete: um pagamento antecipado, um link para um formulário ou um prazo apertado para agir. São sinais de alerta que justificam parar e confirmar a informação antes de avançar e evitar deixar o seu dinheiro nas mãos erradas. 

A realidade é que, durante anos, aprendemos a identificar burlas através de sinais como erros de português, imagens desfocadas ou traduções automáticas. Mas estes indícios já não são suficientes. Com as ferramentas de Inteligência Artificial, é possível criar, em poucos minutos e a baixo custo, conteúdos sofisticados que antes exigiam uma equipa especializada. O resultado é o seguinte:

  • Textos impecáveis, com o tom certo e adaptados a cada destinatário;
  • Imagens realistas, que mostram pessoas que não existem, documentos falsos, comprovativos de transferência ou capturas de ecrã com lucros fictícios; 
  • Vídeos manipulados, ou deepfakes, que mostram figuras públicas a dizer coisas que nunca disseram;
  • Vozes clonadas utilizadas em chamadas que parecem vir do banco ou de um familiar em apuros.

E há mais a ter em atenção. A IA permite, ainda, personalizar as burlas com o seu nome, o banco onde tem uma conta ou até os detalhes de uma compra real. São, regra geral, estes pormenores que tornam a fraude mais convincente e podem levá-lo a baixar a guarda. Afinal, é mais fácil acreditar numa mensagem quando inclui dados verdadeiros ou quando quem nos contacta parece conhecer a nossa situação.

Assim, a conclusão prática é simples: a qualidade de um conteúdo deixou de ser garantia de autenticidade. Para avaliar se uma mensagem é legítima, importa confirmar a sua origem, verificar a informação através de canais oficiais e desconfiar de pedidos urgentes de dinheiro ou de dados pessoais.

Como identificar, na prática, os sinais de alerta de uma fake news na informação financeira?

Nem sempre é fácil distinguir informação financeira credível de conteúdos falsos ou tentativas de burla. Ainda assim, há sinais que o podem ajudar a identificar riscos antes de perder o seu dinheiro ou partilhar dados pessoais, nomeadamente:

  • Nas promessas:
    • Ganhos garantidos ou investimentos “sem risco”. Isto não existe. Mais rentabilidade significa sempre mais risco. Por isso, desconfie sempre de promessas de lucro sem possibilidade de perda;
    • Valores extraordinários apresentados como garantidos, com promessas de “ganhar 500 euros por dia com um investimento inicial de 250 euros”, por exemplo;
    • Oportunidades exclusivas ou prémios de concursos em que nunca participou.
  • Na pressão para agir:
    • Prazos apertados, com expressões como “só hoje”, “nas próximas duas horas” ou “últimas vagas”;
    • Mensagens alarmistas sobre as suas poupanças ou uma suposta conta bloqueada, que procuram provocar uma reação imediata; 
    • Pedidos de sigilo, com instruções para não falar com a família nem contactar o banco.
  • Nos pedidos que lhe fazem:
    • Dados pessoais, credenciais bancárias ou códigos de confirmação solicitados através de links, mensagens ou chamadas suspeitas;
    • Pagamentos antecipados para receber um crédito, um prémio ou um reembolso;
    • Pagamentos difíceis de reverter, através de criptomoedas, cartões pré-pagos ou transferências para particulares via MB Way. Desconfie também de pedidos para instalar aplicações ou permitir o acesso remoto ao seu equipamento.
  • Na informação que falta:
    • Identificação do autor, data, morada ou número de registo. Desconfie de contactos sem informação verificável ou que só disponibilizam um perfil de WhatsApp ou Telegram;
    • Um endereço de site que não corresponde exatamente ao oficial. Compare-o sempre o URL letra a letra;
    • Provas verificáveis que sustentem as alegações. Testemunhos, capturas de ecrã com lucros e fotografias de carros não demonstram, por si só, que uma oportunidade é legítima.

Basta um destes sinais para justificar uma pausa. Confirme a informação através de canais oficiais e não avance enquanto tiver dúvidas. 

Como confirmar se uma informação financeira é verdadeira?

Antes de acreditar numa informação financeira ou agir com base nela, siga estes três passos para confirmar a sua autenticidade:

  1. Pare e ganhe tempo. Não responda, não clique em links nem transfira dinheiro sem confirmar a informação. A pressão para agir rapidamente é a principal tática de quem engana, e nenhuma oportunidade legítima desaparece por esperar algumas horas.
  2. Procure a mesma informação noutras fontes. Pesquise o nome da empresa ou da plataforma juntamente com termos como “burla” ou “reclamações”. Compare a informação com a de fontes credíveis.
  3. Confirme junto da fonte oficial. Aceda à aplicação ou ao site oficial da suposta instituição pelos seus próprios meios, escrevendo o endereço no navegador. Nunca clique em links ou em números de telefone incluídos na mensagem suspeita.

O que fazer se for vítima de uma burla financeira?

Se partilhou dados, autorizou uma operação ou perdeu dinheiro, agir rapidamente pode ajudar a limitar os prejuízos. 

Siga estes passos, por esta ordem:

  1. Contacte imediatamente o banco. Peça o bloqueio dos cartões ou das credenciais comprometidas e verifique se ainda é possível cancelar a transferência;
  2. Altere as palavras-passe comprometidas. Comece pela do seu banco e pelo e-mail associado. Se reutilizou as mesmas palavras-passe noutros serviços, altere-as também e ative a autenticação multifator;
  3. Guarde todas as provas possíveis. Faça capturas de ecrã das mensagens e dos sites, guarde os comprovativos de pagamento e registe os IBAN, números de telefone e endereços de e-mail envolvidos;
  4. Apresente queixa às autoridades. Pode recorrer à PSP, à GNR ou à Polícia Judiciária. Em alternativa, utilize o portal Queixa Eletrónica. Lembre-se de que não precisa de conhecer a identidade do autor para denunciar os factos e que é este passo que permite ligar casos dispersos e investigar diferentes redes de burlas; 
  5. Comunique a situação à entidade supervisora competente. Consoante o produto ou serviço envolvido, poderá contactar o Banco de Portugal, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) ou a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF). Lembre-se de que a sua denúncia pode ajudar a proteger futuras vítimas;
  6. Se partilhou cópias de documentos de identificação, mantenha-se atento a possíveis utilizações indevidas. Pode, por exemplo, consultar o seu Mapa de Responsabilidades de Crédito no Banco de Portugal para verificar financiamentos registados em seu nome. 

Que hábitos ajudam a prevenir burlas financeiras?

Não é preciso desconfiar de tudo para se proteger. Criar alguns hábitos simples pode ajudar a reconhecer tentativas de fraude, mesmo quando são utilizadas técnicas que nunca viu antes. Para isso: 

  • Adote a regra das 24 horas. Perante uma mensagem inesperada que exige uma decisão financeira rápida, pare e confirme a informação antes de agir;
  • Nunca aceda a serviços através de links suspeitos. Para contactar o banco, as Finanças ou a Segurança Social, utilize a aplicação oficial ou escreva o endereço do site no navegador;
  • Nunca partilhe códigos de segurança. Não divulgue códigos de confirmação, palavras-passe ou credenciais bancárias, mesmo que o pedido pareça legítimo;
  • Combine uma palavra-passe familiar. Uma palavra ou expressão conhecida apenas pela família pode ajudar a confirmar a identidade de alguém numa chamada inesperada, sobretudo se houver um pedido urgente de dinheiro;
  • Ative as notificações de movimentos bancários. Receber alertas sobre pagamentos e transferências pode ajudá-lo a detetar operações suspeitas mais rapidamente;
  • Não confie nas redes sociais. Um anúncio pago não é uma garantia de legitimidade. Confirme as promessas de investimento e as informações financeiras junto de fontes independentes e credíveis;
  • Fale sobre burlas com a família. Por fim, partilhe estes sinais de alerta com familiares (e amigos) e incentive-os a pedir ajuda sempre que receberem mensagens suspeitas ou pedidos inesperados de dinheiro.

Não há dúvidas: as burlas estão cada vez mais sofisticadas e qualquer pessoa pode ser enganada, principalmente quando é apanhada desprevenida ou pressionada emocionalmente. 

Por isso, mais do que desconfiar de tudo, importa criar hábitos que permitam parar, confirmar a informação e agir com segurança. Dedicar alguns minutos para verificar possíveis sinais de alerta pode fazer toda a diferença na prevenção de uma burla.

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