As burlas por WhatsApp estão a mudar: saiba como se proteger
Índice de conteúdos:
- Quais são as principais burlas por WhatsApp?
- Como é que as burlas com IA estão a tornar os esquemas mais convincentes?
- Como reconhecer uma burla no WhatsApp?
- Como evitar perder dinheiro em burlas pelo WhatsApp?
- Fui vítima de uma burla no WhatsApp. O que devo fazer?
- Erros que podem facilitar uma burla no WhatsApp
As burlas por WhatsApp estão cada vez mais sofisticadas, recorrendo a ferramentas como a Inteligência Artificial (IA) para imitar pessoas e marcas de forma convincente. Saiba como reconhecer os principais sinais de fraude e proteger o seu dinheiro.
As burlas através de mensagem têm vindo a tornar-se mais frequentes e difíceis de detetar. De acordo com o estudo “The Great Messaging Heist”, da empresa de cibersegurança Kaspersky, cada vítima portuguesa perdeu, em média, 800 euros por burla, e 54% dos portugueses inquiridos foram enganados em menos de 30 minutos.
Ainda segundo o mesmo estudo, em Portugal, o WhatsApp é a plataforma mais utilizada pelos burlões, que recorrem a técnicas cada vez mais sofisticadas para tornar as mensagens, chamadas e pedidos de dinheiro mais credíveis. Com recurso à Inteligência Artificial, por exemplo, já é possível reproduzir vozes e imagens e imitar de forma realista familiares, amigos ou marcas.
Por isso, os sinais tradicionais de uma burla, como erros ortográficos ou mensagens claramente suspeitas, podem já não ser suficientes. É importante confirmar a identidade de quem está a contactar, desconfiar de pedidos inesperados e evitar partilhar dados pessoais ou efetuar pagamentos sem verificar primeiro a situação.
Neste artigo, explicamos como funcionam as burlas por WhatsApp, quais os principais sinais de alerta, como se pode proteger e o que fazer se for vítima de fraude.
Quais são as principais burlas por WhatsApp?
As principais burlas por WhatsApp recorrem a engenharia social para manipular as vítimas e levá-las a partilhar dados, clicar em links, instalar aplicações ou transferir dinheiro. Os burlões podem fazer-se passar por familiares, amigos, empresas ou outras entidades de confiança e criar situações de urgência para dificultar a reação da vítima.
Entre os esquemas mais comuns estão:
- Burla do falso familiar: também conhecida como a burla “olá pai, olá mãe”, consiste em o burlão fazer-se passar por um filho ou outro familiar. Normalmente, afirma ter um número novo porque perdeu ou partiu o telemóvel e, pouco depois, pede dinheiro para pagar uma despesa urgente. O objetivo é levar a vítima a fazer uma transferência ou realizar um pagamento através de uma referência Multibanco.
| Exemplo de mensagem inicial: “Olá Mãe, este é o meu novo número. O outro telemóvel caiu e partiu o ecrã. […] Podes fazer-me um favor?” Exemplo de mensagem a pedir dinheiro: “Mãe, preciso de pagar um documento urgente antes das 18h se não cobram multa. Consegues pagar tu e eu devolvo-te amanhã?” |
Perante este tipo de pedido, não transfira dinheiro sem confirmar primeiro a identidade do familiar, por exemplo, através de uma chamada para o número que já tinha ou de outro contacto habitual.
- Clonagem ou roubo da conta do WhatsApp: o burlão tenta obter o código de autenticação de seis dígitos necessário para registar a conta noutro dispositivo. Para isso, pode alegar que se enganou ao indicar o número de telefone ou que precisa que a vítima lhe reencaminhe um código. Se conseguir obtê-lo, pode assumir o controlo da conta e utilizá-la para contactar os seus familiares e amigos em nome da vítima, com o objetivo de extorquir dinheiro.
- Falsas ofertas de emprego: o criminoso apresenta uma suposta oportunidade profissional, muitas vezes com condições muito atrativas, e tenta levar a vítima a clicar num link ou a fornecer dados pessoais.
- Falsos investimentos: a vítima pode ser adicionada a grupos de WhatsApp onde outros participantes partilham supostos ganhos elevados e apresentam oportunidades de investimento aparentemente exclusivas. Depois de conquistar a confiança da vítima, o burlão incentiva-a a transferir dinheiro para uma plataforma falsa e, depois de terem o dinheiro, desaparecem.
- Falsos prémios e passatempos: a mensagem utiliza o nome e a imagem de marcas conhecidas para anunciar um prémio, vale ou cabaz. Para o receber, a vítima é convidada a clicar num link, responder a um questionário ou partilhar a mensagem com os seus contactos. O objetivo pode ser recolher dados pessoais, subscrever serviços pagos ou instalar software malicioso no dispositivo.
| Exemplo de mensagem: “O Continente comemora 90 anos e está a oferecer um cabaz de 250€ para celebrar. Clique aqui para responder ao questionário: cont-aniversario.click/…” |
- Falsas atualizações do WhatsApp: o utilizador recebe uma mensagem sobre uma suposta atualização, versão premium ou nova funcionalidade da aplicação. O link disponibilizado pode encaminhá-lo para um site fraudulento ou levar à instalação de malware, permitindo aos burlões obter dados ou aceder ao dispositivo.
- Falsas transportadoras em vendas online: este esquema é frequente quando alguém coloca um artigo à venda em plataformas como OLX ou Vinted. O suposto comprador afirma que já efetuou o pagamento e envia um link para uma página que imita a de uma transportadora. A vítima é então induzida a introduzir os dados do cartão ou outros dados bancários para, alegadamente, receber o dinheiro da venda.
| Exemplo de mensagem: “Já paguei o artigo e as taxas no site da DPD. Pode clicar neste link para confirmar a venda e transferir o dinheiro do seu saldo para o seu cartão bancário: dpd-seguro-recebimentos.site” |
Burlas com IA: como estão a tornar os esquemas mais convincentes?
As ferramentas de Inteligência Artificial podem ser utilizadas pelos burlões para criar mensagens, vozes, imagens e vídeos falsos cada vez mais realistas, tornando mais difícil perceber se estamos realmente a falar com uma pessoa conhecida.
A IA pode, por exemplo, ajudar os criminosos a:
- Criar mensagens mais personalizadas: conseguem adaptar o texto ao perfil da vítima, utilizar uma linguagem mais natural e reproduzir a forma como determinada pessoa ou empresa comunica;
- Imitar vozes: a partir de gravações disponíveis, podem ser geradas vozes artificiais semelhantes às de familiares ou amigos;
- Criar imagens e vídeos falsos: os chamados deepfakes podem ser utilizados para simular a identidade ou a aparência de outra pessoa.
O resultado é que uma mensagem bem escrita, uma fotografia ou até uma chamada telefónica já não são, por si só, provas de que o contacto é legítimo, já que um burlão pode utilizar estes recursos para criar uma situação aparentemente real e levar a vítima a agir por impulso.
De acordo com o estudo da Kaspersky anteriormente referido, 31% dos inquiridos foram alvo de esquemas que utilizaram vozes artificiais e 25% receberam imagens ou vídeos deepfake.
Por isso, perante um pedido inesperado de dinheiro, dados pessoais ou outra ação urgente, confirme sempre a identidade do remetente através de outro canal. Além disso, não clique em links nem partilhe informação sensível antes de confirmar que o contacto é legítimo.
Como reconhecer uma burla no WhatsApp?
Um dos sinais mais evidentes de uma tentativa de burla costumava ser os erros ortográficos e gramaticais. No entanto, a IA permite aos burlões colmatar estas falhas de forma muito eficaz, pelo que a linguagem já não é o indicador mais fiável.
Assim, é importante avaliar o contexto da mensagem e confirmar a identidade de quem o está a contactar. Alguns dos principais sinais de alerta são:
- Números desconhecidos: desconfie especialmente de contactos internacionais ou de mensagens que chegam de um número que não tem guardado;
- Mudança inesperada de número: se alguém que conhece disser que está a utilizar um novo número, confirme a sua identidade através de outro canal antes de continuar a conversa;
- Pedidos inesperados de dinheiro ou dados: tenha especial atenção a pedidos de transferências, pagamentos, dados bancários, palavras-passe ou outras informações pessoais, mesmo quando parecem vir de alguém conhecido;
- Pressão para agir rapidamente: expressões como “é urgente”, “preciso agora” ou ameaças de perder uma oportunidade são frequentemente utilizadas para impedir que a vítima tenha tempo para verificar a situação;
- Ofertas demasiado boas para serem verdade: desconfie de prémios, empregos, investimentos ou outras oportunidades que prometam ganhos elevados ou vantagens fora do habitual;
- Pedidos de códigos de verificação: nunca partilhe códigos recebidos por SMS ou WhatsApp, mesmo que alguém diga que os enviou por engano;
- Métodos de pagamento pouco habituais e não-rastreáveis: tenha cuidado com pedidos para fazer pagamentos através de criptomoedas, cartões-presente ou cartões pré-pagos, sobretudo quando não existe uma explicação plausível;
- Links suspeitos: verifique sempre o endereço antes de clicar e desconfie de domínios com nomes estranhos, erros ortográficos ou que não correspondam à entidade indicada na mensagem;
- Ficheiros ou anexos inesperados: não abra ficheiros recebidos, sobretudo de formatos que podem instalar código malicioso nos seus dispositivos, como .exe, .scr, .docm ou .xlsm;
- Áudios, fotografias e vídeos estranhos: conteúdos gerados ou manipulados por IA podem apresentar uma voz demasiado robótica, entoação pouco natural, pausas invulgares ou inconsistências na imagem, iluminação, sombras e movimentos. Por isso, dê especial atenção a estes pormenores.
Como evitar perder dinheiro em burlas pelo WhatsApp?
As burlas por WhatsApp podem fazer as vítimas perder centenas ou até milhares de euros. Por isso, se receber uma mensagem suspeita ou um pedido inesperado de dinheiro:
- Pare e não responda por impulso: os burlões recorrem frequentemente a técnicas de urgência e pressão para levar as vítimas a agir rapidamente;
- Não faça transferências nem pagamentos: mesmo que o pedido pareça vir de um familiar, amigo ou entidade conhecida, confirme primeiro a situação;
- Não partilhe códigos ou credenciais: nunca envie códigos de autenticação, palavras-passe, dados de acesso ao homebanking ou outras informações bancárias através do WhatsApp;
- Confirme a identidade por outro canal: se a mensagem vier, supostamente, de um familiar ou amigo, ligue para o número que já tinha guardado para confirmar a veracidade da mesma. Se alegadamente vier de um banco ou empresa, contacte a entidade através dos seus canais oficiais;
- Confirme os dados antes de pagar: verifique se o nome e os dados do destinatário correspondem efetivamente à pessoa ou entidade que lhe pediu o pagamento;
- Bloqueie e denuncie o contacto: se confirmar que se trata de uma tentativa de fraude, interrompa a comunicação, bloqueie o número e utilize as ferramentas de denúncia do WhatsApp.
| Já conhece o Detector de Burla? Para ajudar os consumidores a perceber se uma mensagem pode ser uma tentativa de fraude, a Associação Portuguesa de Marketing Directo e Digital criou o Detector de Burla, uma ferramenta gratuita de análise de mensagens suspeitas. No site, pode introduzir o texto da mensagem, inserir o URL recebido ou carregar uma captura de ecrã. A ferramenta analisa a informação e apresenta uma avaliação do nível de risco, acompanhada de recomendações sobre como agir. |
Fui vítima de uma burla no WhatsApp. O que devo fazer?
Se foi vítima de uma burla no WhatsApp, quanto mais rapidamente agir, maiores são as possibilidades de limitar os prejuízos. Para isso, siga estes passos:
- Contacte imediatamente o seu banco: se partilhou dados bancários, credenciais ou informações do cartão, informe a entidade e peça o bloqueio dos meios de pagamento que possam estar comprometidos. Se transferiu dinheiro para o burlão, pergunte se é possível cancelar ou reverter a operação;
- Altere as palavras-passe comprometidas: mude de imediato as palavras-passe das contas que possam ter sido afetadas. Se utilizava a mesma palavra-passe noutros serviços, altere-a também;
- Guarde todas as provas: não apague as mensagens. Guarde o número utilizado pelo burlão, capturas de ecrã, links, comprovativos de pagamento e quaisquer outros elementos que possam ajuda a identificar a fraude;
- Bloqueie e denuncie o contacto: depois de guardar as provas, bloqueie o remetente e utilize a funcionalidade de denúncia do WhatsApp;
- Apresente queixa: denuncie ainda a fraude às autoridades competentes, como a PSP, GNR ou Polícia Judiciária, fornecendo todos os elementos que reuniu;
- Avise os seus contactos: se os burlões conseguiram aceder à sua conta de WhatsApp, informe familiares, amigos e outros contactos para evitar que sejam enganados em seu nome.
11 erros que podem facilitar uma burla no WhatsApp
Alguns comportamentos podem aumentar o risco de ser vítima de uma burla no WhatsApp. Estes são alguns dos erros mais comuns que deve evitar:
- Confiar apenas no nome ou na fotografia do contacto, já que estes elementos podem ser facilmente imitados ou manipulados;
- Aceitar pedidos de contacto de desconhecidos sem verificar a sua identidade, sobretudo quando a conversa envolve pedidos de informação, links ou dinheiro;
- Responder sob pressão ou com demasiada rapidez, sem parar para analisar a mensagem e confirmar se o pedido é legítimo;
- Não confirmar, através de outro canal, pedidos suspeitos de dinheiro, mesmo quando parecem ser feitos por um familiar, amigo ou entidade conhecida;
- Partilhar códigos de autenticação recebidos por SMS ou WhatsApp, mesmo que alguém alegue que os enviou por engano;
- Clicar em links ou abrir ficheiros sem verificar primeiro o remetente, o endereço da ligação e o formato do anexo, uma vez que estes podem conduzir a páginas falsas ou instalar software malicioso;
- Não ativar a autenticação de dois fatores no WhatsApp, uma medida de segurança que acrescenta uma camada adicional de proteção à conta;
- Ignorar sinais de acesso indevido ou atividade suspeita na conta, como mensagens enviadas sem o seu conhecimento ou dispositivos que não reconhece associados à conta;
- Não manter o WhatsApp atualizado, deixando de instalar atualizações que podem incluir correções de segurança;
- Guardar ou partilhar informação financeira e dados pessoais nas conversas, sobretudo códigos, palavras-passe, dados bancários ou outras credenciais que possam ser utilizados para aceder às suas contas;
- Não controlar quem pode adicioná-lo a grupos, deixando as definições de privacidade demasiado permissivas e facilitando o contacto por parte de desconhecidos.
Nenhum destes comportamentos significa, por si só, que será vítima de uma burla. No entanto, reduzi-los ajuda a diminuir a exposição a tentativas de fraude e torna mais difícil que um burlão consiga tirar partido de uma situação de confiança ou distração.
